Imagem ilustrativa da imagem A mãe de todas as pretensões
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A primeira das muitas transgressões do novo filme de Darren Aronofsky é seu título inusitado, "mother!", assim mesmo, em minúscula e com exclamação, primeiro nome que lhe veio à mente (fertilíssima e freudianíssima) quando acordou após terminar o roteiro. É de longe seu trabalho mais ambicioso. E pretensioso. E em que pese ser um filme admirável em suas intenções, é difícil estabelecer se funciona ou não.

Conta a história de um casal que vive isolado da civilização em meio a um bosque. A casa onde moram é antiga, e a esposa, conhecida como Mãe (Jennifer Lawrence, atual mulher do diretor por sua conta e risco) está reformando a construção. O marido, conhecido como Ele (Javier Bardem), é um poeta em crise de criação tentando escrever um novo livro, fechado em seu escritório. Um dia aparece de visita um casal estranho, Homem e Mulher (Ed Harris e Michelle Pfeiffer), recebidos por Ele sem qualquer hesitação. E então tem início uma escalada de acontecimentos ainda mais insuspeitados e assustadores.

Mas se você até aí pensava que "mother!" era seu filme de terror preferido, do tipo mediano, enganou-se. E isso porque o trabalho do cineasta, apesar de eminentemente perturbador, escapa a todo e qualquer gênero, e somente pode classificar-se como obra dele, seu autor: é um filme de Aronofsky, como são "Pi", "Réquiem para um Sonho", "O Lutador", "A Fonte da Vida", "O Cisne Negro" e "Noé". É um exercício de abstração, cheio de elementos estéticos cuja presença somente se justifica por aquilo que fazem você sentir, não por aquilo que eles informam sobre a história.
E quem ou o que é mãe? Ela está rebocando as paredes da casa com um estuque ao qual acrescenta um pó amarelo para dar-lhe cor. Esse pó amarelo é o mesmo que ela dissolve em água e bebe. Seria para tratar alguma doença? Ela parece ser a única naquela casa que vê e ouve coisas estranhas (efeito da bebida?). Escuta suspiros, gemidos e respiração ofegante vindos das paredes. Tem visões horrendas de vísceras com vida própria (como o coração batendo atrás de uma parede). E o espectador (felizmente) deste lado da tela imagina muitas coisas com este amálgama insólito: está louca esta mãe ou ela é parte da casa? Está viva a casa? Cada vez que o imóvel range ou algo parecido, mãe se acha desconcertada ou sofrendo. Mas é só por enquanto: a narrativa vai tomar outro caminho.

"mãe!" é o tipo de filme em que todos os aspectos da produção foram interpostos, não apenas as imagens e o som. O roteiro, por exemplo, não segue nenhuma convenção da escrita cinematográfica, e o resultado é um filme que não opera a partir da lógica narrativa nem de fórmulas repetitivas (endêmicas de Hollywood), mas das sensações que crescem na história, até acumular e explodir no final em uma espécie de rito orgiástico cuja vítima é a estética.

DESEMPENHOS
Como consequência, os desempenhos são mais ou menos afetados. Jennifer Lawrence às vezes parece constrangida, intimidada pelas exigências emocionais de seu personagem – a câmera está com ela quase cem por cento do tempo. O personagem de Ed Harris é o mais enigmático de todos, mas o roteiro não lhe fornece material para desenvolver emoções complexas. Bardem interpreta Ele com excessiva solenidade, sua presença é sempre ameaçadora, mas não gera empatia. Os personagens como um todo, afinal, não fluem como seres humanos, mas como executores das instruções de Aronofsky, enfoque que lhe permite construir o tom de sua narrativa metafórica através do elenco, mas que o impede de criar personalidades com as quais podemos nos preocupar, o que é necessário se considerarmos que o centro da história diz respeito a um casamento...

Mãe e Ele não dizem entre si que se amam, nem fazem sexo, nem conseguem rir. Ele está ensimesmado no trabalho, ignorando mãe todo o tempo. Não dão sinais de sentir algo um pelo outro, o que leva o espectador a não comprovar a validade espiritual do casamento e nem rastrear emocionalmente a origem de sua relação. É evidente que esta ausência de carinho foi decisão deliberada de Aronofsky já no roteiro, mas deixa o relato impenetrável desde as emoções e o poético. O que acontece aqui é, em essência, a revelação do verdadeiro tema do filme: o romance entre o artista e sua musa, e como a fama dele entra na intimidade do relacionamento, que está por conta dela. "mãe!" é tentativa, em linhas gerais frustrada, de uma grande poesia cinematográfica, que deveria desencadear estímulos sensoriais para que pudéssemos viver na própria carne o terror de Aronofsky diante da falência de um amor.

SIMBOLISMOS
O diretor não nos convence de que possa haver algum dia uma relação entre o casal; o filme é pesado em simbolismos religiosos e políticos gratuitos, tornando-se um ciclo semiótico sem graça e enigmático, que anseia ser místico. Os propósitos de muitas ações ficam sem explicações manifestas, e tudo acontece em nível de ideias e não de emoções. E as coisas se misturam, se sobrepondo em camadas que adensam o peso: são tentativas de estabelecer reflexões metafóricas sobre a celebridade e o insaciável apetite dos fãs que sempre querem mais de seus ídolos; sobre o casamento; sobre a maternidade e sobre o egoísmo do artista. Mas são ideias não aprofundadas. Ou melhor, elas são mal esboçadas no emaranhado de situações bizarras e imagens de pesadelo que são o coração da segunda parte do filme, quando a insanidade desaba sobre a casa e a violência atinge pontos extremos para uma produção hollywoodiana.

Se Aronofsky busca certa redenção através de um alter ego(Ele/Bardem, obviamente), devia fazer com que o personagem fizesse isso naturalmente, mas não pedir desculpas ao público, com diálogos didáticos, por ser o artista que é. Ao final, quer ser entendido, e quer que "mãe!" transcenda nossos raciocínio e nos remeta ao Éden. Mas isso ele pede, e não nos persuade. Isso é totalmente desnecessário, porque ele nunca nos integra ao seu discurso. Discurso, aliás, inteiramente influenciado por Buñuel, Fellini, Bergman, Hanecke, Polanski, Lynch, Jodorowsky, Cronenberg. A diferença é que os ilustres citados contam, a mim pelo menos, histórias simbólicas guiadas por emoções e ideias profundas. E não oferecem explicações desidratadas e muito menos desculpas.

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