A luz e a escuridão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de maio de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha2 
Na abertura de "Esplendor", em segunda semana de exibição no Cine Com-Tour e também numa das salas do Luimère Royal Plaza - há um filme dentro de outro filme. O espectador ouve uma voz que descreve todas as imagens que estamos vendo, uma espécie de comentário de áudio. Trata-se de uma empresa que faz descrições sonoras de filmes para espectadores cegos. Assim, o público experimenta uma forma imediata de ruptura entre as imagens que o filme mostra e sua descrição em áudio correspondente em palavras.
A jovem Misako (Ayame Misaki) realiza este trabalho de escrever áudio-descrições para pessoas portadoras de deficiência visual. O processo inclui ainda sessões regulares de interação com deficientes visuais a fim de melhorar o produto final que será exibido nas salas de cinema. Numa dessas conversas, Misako é rudemente questionada para os padrões japoneses de cortesia e polidez por um famoso fotógrafo de meia idade que está perdendo gradualmente a visão. Amargurado com sua iminente cegueira total, Nakamori (Masatoshi Nagase) critica e ofende Misako ao acusar seu texto de "intrusivo", porque subestima a imaginação de pessoas descapacitadas, impondo a elas interpretações subjetivas e transferindo emoções que podem não ser as mesmas e muito provavelmente não são. A protagonista, apesar de magoada pelos comentários do fotógrafo, não pode evitar a curiosidade em relação a ele, e ela se aproxima, descobrindo imagens produzidas por ele que a transportam ao passado familiar.
Nakamori acaba de publicar uma foto que leva Misako a recordar seu pai, já falecido. Surge a lembrança e a dor de uma perda, que vai se intensificar porque logo sua mãe, com Alzheimer, vai desaparecer aos poucos. Poético e sensível, "Resplendor"/Hikari(Luz) é filme sobre os sentidos, a perda, a consciência e o esquecimento. Sobre luz e escuridão, sobre imagens e palavras. Ingredientes ideais para que Naomi Kawase reafirme seus predicados demonstrados em sua não muito extensa mas sólida filmografia, entre documentários e ficções. Também presentes a fragilidade da vida, a busca da felicidade e a comovente fascinação pelo cinema desde uma perspectiva profunda e original. Kawase não descarta em seu discurso a aceitação da realidade como superação do ressentimento e da amargura, e como o amor consegue acabar com o isolamento e a solidão.
No filme há uma cena essencial na qual Misako se encontra com o diretor do filme para que ele conheça a interpretação dela na descrição da última cena. Neste encontro, fica claro que Misako interpreta o filme de maneira completamente diferente daquela do cineasta. Fica claro que ela, ao descrever com seus olhos, com suas palavras e principalmente com suas emoções, cria um filme dentro de outro filme. Sua leitura subjetiva cria um impedimento, uma parede que não permite que o público com deficiência visual utilize sua própria imaginação. Quando um personagem olha o entardecer, ela comenta , por exemplo, que ele está "pleno de esperança".
Observando este processo de Misako, o espectador pode estar se colocando questões de respostas delicadas. Além da importância da luz, o filme coloca outro tema como a essência do cinema? Quais palavras usar para não comprometer a finalidade do filme a ser transmitido? Como se podem trocar imagens por palavras? Deveria o silêncio ser guardado quando se trata de arte? Nunca é demais lembrar sempre que a percepção é muito subjetiva porque o que é perceptível para o olhar de uns pode ser invisível para o de outros. O mundo pelo qual nos movimentamos existe somente através da subjetividade.
O filme, também de clara essência romântica, utiliza em boa parte da narrativa um ritmo taciturno e uma iluminação muito sugestiva, que permite distinguir perfeitamente os contraluzes de Nakamori, incapaz de encontrar a beleza da vida agora que tudo se apaga ao seu redor. A diretora Kawase adotará então um retrato compreensivo para os impedimentos e frustrações que pressupõe uma situação tão traumática como é a perda irreversível da visão. Com a ajuda de Misako, o artista aposentado terá que se dar conta de que a escuridão após a luz não tem que ser uma condenação, mas a oportunidade de construir uma visão idealizada daquela beleza que um dia ele teve diante dos seus olhos. "Não existe nada tão belo como o que desaparece diante dos nossos olhos". A importância do efêmero como potencialização do esplendor natural.


