A lenda, sempre a lenda
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quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Ainda dá tempo. Há duas salas na cidade que continuam a exibir o filme por mais uma semana. Que não é nenhum épico inesquecível, mas um entretenimento acima do razoável, equilibrado por razões que justificam uma visita, e logicamente um reencontro (ou um primeiro contato desta plateia de marvéis e comics em geral) com a história do personagem, ícone carismático e fascinante.
Cresci lendo e vendo Tarzan. Na literatura, os dezoito dos vinte e quatro títulos escritos no início do século 20 pelo estadunidense Edgar Rice Burroughs e traduzidos por cabeças bem pensantes como as de Manuel Bandeira e Monteiro Lobato , aquele que nunca foi à África, mas foi ficcionista e visionário o suficiente para não trair a magia daquele universo selvagem e misterioso, um continente que ainda hoje exerce poderoso apelo ao imaginário popular, não importa se mais ou menos informado. No escuro cúmplice do cinema, a imaginação leitora que caminhava ao lado do herói em aventuras sem fronteiras nem sempre encontrou em imagens alheias a esperada correspondência. Mas também nunca desapontou por completo.
Prontos e acabados, recebi Tarzans diversos, cravados nos rostos de atores como o campeão olímpico Johnny Weissmuller (o Michael Phelps dos anos 1920), Lex Barker, Ron Elly e Christopher Lambert, entre outros menos votados. Todos competentes em suas performances. No cinema, mais de meia centenas de títulos. A maioria descartável, apenas instrumentos de estatística. Minha fidelidade a Tarzan nunca se abateu, apenas dos esforços da mediocridade. Pois o que sempre manteve minha estima por esta trama imortal foi justamente o que dá título ao filme: a lenda. A história de Lorde Greystoke II e de sua mulher, mortos na África, e a permanência de Tarzan, como terceiro nobre homônimo na descendência direta.
A lenda aqui não apenas como narrativa de caráter maravilhoso com evocação poética, mas também como relato fantástico. Neste "A Lenda de Tarzan", dirigido por David Yates, há duas frentes de trama, que vão se mesclando ao longo da narrativa. A primeira projeta com realismo histórico como a África foi vítima das políticas predatórias das potências europeias, na segunda metade do século 19. Entre elas, a Bélgica escravagista e inescrupulosa exploradora de fontes naturais de riqueza da região do Congo. A aventura de Tarzan está ligada a esta nuance política, com sua volta ao continente que o viu nascer e onde deixou raízes entranhadas para sempre.
Enquanto o espectador se envolve com a inesgotável cobiça colonial, paralelamente os flashbacks bem acoplados na narração alimentam a descoberta da lenda do homem-macaco. O relato se comporta bem, e se mostra coerente, com bom manejo de ritmo e dos tempos narrativos. Assim, a história tradicional de Tarzan se amarra com seu regresso da "civilização europeia" à selva que o viu crescer entre símios. Presente está o tema ideológico de sempre: o branco (Tarzan) que salva os negros. Apesar do risco, o filme lida bem com o risco e denuncia a cobiça que levou a rica África ao atual estado de miserabilidade, com a rapina de seus minerais e a redução de seus habitantes pela escravidão.
Para quase desgraça do filme, o inexpressivo sueco Alexander Skarsgard é um desastre como Tarzan. Em geral, a direção de atores é muito ruim, cada macaco no seu galho e os macacos estão ótimos... O filme resulta mais ou menos em história acumulativa, uma odisseia na selva. Os animais cumprem o papel que lhes cabe em filmes de Tarzan, claro que apoiados pela trucagem computadorizada. O vilão eficiente (e a perigoso caminho da caricatura) é Christopher Waltz e o budy guy de Tarzam fica por conta de Samuel L. Jackson, não muito crível em seu mea culpa de guerras passadas. Em alguns momentos mas só em alguns momentos , a visão da selva e de seus habitantes lembra o traço daquele universo majestoso criado para os comics de Tarzan pelo grande Burne Hoghart.


