A insuportável ideia de negociar com Hitler
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Certa vez, o político e pensador estadunidense Franklin Roosevelt, também peça decisiva na Segunda Guerra Mundial, comentou a respeito de Winston Churchill: "Ele tem cem ideias em um só dia. Quatro são boas, as outras noventa e seis são extremamente perigosas". Em 20 de maio de 1940, em plena ofensiva nazista na Europa, e quando tempos de chumbo pareciam anunciar o esfacelamento da civilização, o então recém-nomeado primeiro ministro inglês teve uma dessas poucas boas, brilhantes ideias...e que nem por isso deixava de ser também muito perigosa: promover a retirada de boa parte do exército britânico encurralado em Dunquerque lançando mão de um grande número de pequenos barcos não militares, mas pertencentes à população civil. A derrota evitada e o êxito inesperado desta estratégia deu certo a pedido de Churchill, como registra a História recuperada no cinema ano passado em "Dunquerque", e a Inglaterra pode seguir revigorada na luta contra o inimigo.
"O Destino de Uma Nação", com estreia nacional a partir de hoje, é sobre alguns daqueles dias cruciais para a sobrevivência do Ocidente e suas sociedades democráticas. Dias terríveis para milhões de pessoas. Dias de tormenta pessoal para a legendária determinação, rebeldia, tenacidade, obstinação do premiê inglês, assaltado por um pesadelo que se traduzia pela insuportável ideia de negociar um tratado de paz segundo as condições do Führer. Churchill terá que fazer frente a uma das decisões mais difíceis e decisivas de sua carreira política, especialmente porque a realidade que o cerca é repleta de pressões: um inimigo impiedoso e irrefreável, um povo despreparado, um rei cético e seu próprio partido atuando na contramão. Esta, é claro, será sua hora mais escura, "the darkest hour" do título original (do filme e do livro em que se baseou, de autoria de Anthony McCarten). Mas apesar de tudo ele atuará como guia de uma nação e tentará mudar o curso da história mundial.
O filme, emocionante e inspirador, evidentemente opta pela narrativa com viés populista, e evita a todo custo debilitar-se com motivações que não sejam inspiradoras da heroicidade histórica. Ou seja, mais coração e emoção. Por isso, "O Destino de Uma Nação" é um thriller vibrante que em momento algum deixa de pulsar graças a uma direção aguerrida que faz lembrar por que o diretor Joe Wright nos seduziu com tantas sequências antológicas em "Orgulho e Preconceito", ou com o maravilhoso plano sequenciada praia de Dunquerque em "Desejo e Reparação". Aqui, o deslumbramento visual, o roteiro às vezes excessivamente verborrágico e a descomunal presença de Gary Oldman como Churchill não impedem que esta cinebiografia atípica se realize satisfatoriamente. Mais a fotografia (Bruno Delbonell, do time dos Coen) e a épica trilha musical (Dario Marianelli) , todos são elementos que contribuem para criar uma atmosfera de angústia neste retrato de Churchill, tanto em sua intimidade (os enfrentamentos com seus assessores e com sua mulher Clementine/Kristin Scott-Thomas), no parlamento (o discurso, a decisão de não negociar com Hitler) e na ruas.
A princípio, Gary Oldman não era a opção mais razoável para viver Churchill. Nenhuma semelhança física, estilo interpretativo diametralmente oposto daquilo que exigia o personagem, mas... Oldman já foi um sensacional policial corrupto em "O Sangue de Romeu" e um inesquecível "Espião que Sabia Demais". Não me lembro de nem um filme irremediavelmente ruim com Gary Oldman. Corrijo: não me lembro de Gary Oldman ruim em qualquer dos muitos filmes nos quais ele esteve, de cara limpa ou com maquiagem leve ou pesada. Sua performance como Churchill com absoluta certeza mudou os rumos do filme, em direção aos pódios. Aqui, houve a junção de três talentos: do pesado personagem-estadista ("blood , sweat and tears"), do maquiador/arquiteto japonês Kazuhiro Tsugi e de Oldman. Foi um milagre, que permitiu converter o ator em outra pessoa sem que ele perdesse nenhum traço de expressividade. Não se vê a Oldman em cena, mas o sentimos, e sobretudo o ouvimos. Pode até ser uma interpretação que às vezes peca por excesso e desconcerto por ser tão anômala em sua carreira (e o Drácula no filme de Coppola, o que seria então ?), mas seu trabalho é tão atraente e irresistível que ficou muito difícil imaginar outro ator com outra estatueta nas mãos depois do aperitivo no Globo de Ouro.


