Nutellização no futebol e os ingressos da Copa América
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terça-feira, 18 de junho de 2019
Thiago Mossini - Grupo Folha 
Dia de jogo do Brasil. É Copa América jogada por aqui, amigo! Bora pegar a camiseta branca da seleção, novinha, que homenageia as primeiras conquistas sul-americanas do Brasil. Ela custa R$ 249,90 na versão torcedor, ou “apenas” R$ 449,99, na versão com gola diferenciada, tecido mais confortável, com furinhos para saída do suor, igualzinha à que os jogadores usam. É preciso mostrar no Insta que está na moda, “né, não?”.
Aliás, para compor melhor o look, é legal fazer aquele risco verde e outro amarelo nas bochechas, passar a pomada no topete para ele ficar maneiro e pronto. É só apresentar o ingresso de quatrocentão e cair para dentro do estádio. Ah, certifique-se de que a bateria do smartphone estará bem carregada, ela será bastante exigida ao longo da partida: é preciso abastecer o feed das redes sociais e encher os stories de vídeos e fotos com a galera. Na ponta da língua não está o Hino Nacional ou o grito de guerra de torcida, mas sim o grito “defense!”, na hora em que a Amarelinha, ou melhor, a Branquinha estiver sob risco. Na NBA é assim, por que no futebol não pode ser?
Cada vez mais o futebol virou palco para este tipo de torcedor, o que vai para o estádio como se estivesse indo para a balada, o que passa o jogo tirando selfie ao invés de... ver o jogo. O que fica no Whats com a galera ou respondendo aos comentários nas fotos postadas durante o jogo ao invés de gritar, vaiar, torcer, xingar, enfim, fazer o que se espera de um torcedor de futebol.
Não bastassem o hambúrguer, cachorro quente, brigadeiro, coxinha gourmets, gourmetizaram também o futebol. O esporte que era do povo virou da elite. Ingressos absurdamente caros que podem ser pagos apenas por uma pequena camada da população. Quatrocentos e poucos contos é quase meio salário mínimo, renda mensal de boa parte dos brasileiros. A eles, resta a televisão e olha lá. Futebol, agora, é só para quem pode. A organização da Copa América deve viver em Marte para não perceber que é inimaginável cobrar um valor desses para um Brasil x Argentina. Imagina, então, para ver Paraguai x Catar.
Se dentro de campo há muitos anos faltam motivos para que o brasileiro se empolgue em pagar para ver a seleção, os valores cobrados para isso selam de vez essa separação, tirando o torcedor raiz da arquibancada e colocando no lugar dele o torcedor digital influencer.
Se fosse somente na Copa América, tudo bem, relevaríamos. Mas não. A nutellização da torcida é geral. Por isso, se quisermos continuar indo ao estádio sem passar raiva, é melhor aceitarmos a facada na hora de comprar o ingresso e vermos o casal gritar “defense” enquanto faz um stories.


