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. | Foto: iStock

Chove e a gente acha muito natural, nem atinamos que é nossa vida caindo do céu. Além de ser mais difícil de ver porque é evidente, o óbvio é repetitivo: toda chuva sempre cai de cima para baixo, sempre molha e sempre passa, mas, se nunca chovesse, nem estaríamos aqui!

Menino naquele tempo sem tevê, na chuva eu ficava vendo a vidraça, as gotas escorrendo, os raios brilhando, o vidro estremecendo com os trovões. Depois, moço li que foram as chuvas regulares que fizeram a terra-vermelha, mas então ainda não dei à chuva o devido apreço. Até que, fazendo reportagem sobre vaquejada no Ceará, alguém apontou campo seco onde bois magrelos procuravam o que mascar: - Amanhã vai estar tudo verdinho!

Porque, explicou, tinha chovido há poucos dias, então a sementeira do chão ia brotar. Mas com a vaquejada logo esqueci aquilo, e depois fui a um forró pé-de-serra. Uma pequena fazenda cobrava ingresso para o baile, com a casa cercada de arame farpado bem-juntinho e com um portão estreito com porteiros. Fora, porém, ficava toda uma feira de sitiantes vizinhos vendendo de tudo de comer, beber e vestir.

Na casa sem móveis (empilhados num quarto), os casais dançavam ao som de sanfona, zabumba e triângulo, e, quando os músicos paravam para descanso, continuava som de caminhoneta no quintal. Como quando fui lá fora na feirinha tomar água de coco, e lá dentro da casa soaram dois estampidos. Pensei fossem fogos julinos, alguém falou não, isso é tiro.

Quando voltei à casa, dois corpos já estavam cobertos por lençóis, num dos cômodos agora fechado. Os dois cabras machos tinham brigado por mulher e um enfiou faca no outro, que, antes de tombar, deu os dois tiros, os corpos caindo em cruz. Alguém foi chamar a polícia, que decerto só viria no dia seguinte, e então os músicos voltaram a tocar. Depois eu abriria a reportagem contando essa morte em cruz, tão inacreditável que o editor da Playboy ligaria ao Ceará para confirmar.

Mas mais inacreditável foi, no dia seguinte ao forró, ver a terra, um dia antes seca e nua, cobrir-se de um fino tapete verde de capim e mato germinando. Só aí entendi a nordestina paixão por chuva, que eu só conhecia de literatura, e passei a ver a chuva com outros olhos.

Hoje moro entre milharais e sojeirais. Vejo as colinas vermelhas enverdecendo, as plantinhas de um dedinho de altura levantando-se da terra, em poucos dias chegando a um palmo, espichando e enfolhando tanto que logo não se vê mais a terra, toda enverdeceu. E sei que quem plantou ganhará mais se as chuvas vierem no tempo certo e na melhor medida, e boas colheitas serão boas para todos, e por tudo isso respeito muito as chuvas.

Pois outro dia vi que ia chover mas fui lidar no quintal, e choveu mesmo mas continuei, ah, o macacão já estava mesmo molhado de suor... Aí o facão escorregou da mão molhada, só não me cortou feio o pé porque a botina não deixou.

A chuva tinha afinado e parecia falar baixinho: me respeite, hem. Catei o facão do chão e fui ficar na varanda, vendo, ouvindo e vivendo a chuva.

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