Deixei de ser comunista há meio século, quando li resenha do livro A Nova Classe, de Milovan Djilas. Captado para o comunismo na universidade, Djilas se filiou ao PC e lutou contra o nazismo como guerrilheiro, ombro a ombro com Josip Tito, que viria a ser presidente. Como seu vice, Djilas iria ser o próximo presidente da República Socialista da Iuguslávia quando, em 1954, escreveu artigos defendendo mais democracia.

Acabou preso três vezes, mas seu livro ajudaria a desnudar o mito comunista. Mostra como os revolucionários, lutando por uma sociedade sem classes, ao chegar ao poder criavam nova classe, concedendo-se e ao Partido grandes privilégios e cultivadas mordomias à custa de sacrifício permanente do povo.

Aqui, víamos esse mesmo espírito nas lideranças dos partidinhos clandestinos que pregavam luta armada contra a ditadura militar, abominando a luta eleitoral. Mas, quando as eleições venceram a ditadura que permitia eleições, muitos desses líderes viraram políticos profissionais, incorporando-se a uma velha classe.

A redemocratização escancarou essa Velha Classe, já apontada por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, os usuários dos poderes públicos desde o Brasil Colônia. Exemplos atuais, o Palácio do Planalto tem mais de três mil funcionários e o Supremo quase isso – com salários muito acima do mercado de trabalho, embora pagos com dinheiro público gerado pela economia de mercado. O Estado é assim exemplo de desigualdade social, sempre cavando mais o abismo entre o setor privado, regulado pelo Estado, e o setor público, que se auto-regula e mal retribui com serviços públicos, como atesta a atual crise pericial no INSS.

A prenunciar o que Lênin chamaria de clima revolucionário, ouve-se aqui e ali que os servidores públicos formam “castas”, indicando que o Brasil não oficial aprofundou os reclamos de 2013. Mas essa massa inconformada e dispersa, incluindo empresariado e autônomos, tem seu ímpeto renovador refreado pela presença do próprio Estado nas famílias: quem não tem parente em estável emprego público?

Essa onipresença do Estado aumenta conforme aumentam os serviços públicos e a assistência social, e com essa capilaridade vigilante contam as ditaduras longevas, como foi o Paraguai de Stroesner e como é Cuba. Mas, com o tempo, a balança fica insustentável pendendo demais para o lado do Estado, agigantado por políticas populistas de governos de esquerda e de direita. A quebra financeira torna-se previsível, como era previsível a quebra do socialismo na China, que porém resolveu o problema com liberdade, entretanto apenas econômica, geradora de uma nova classe trabalhadora e... burguesa.

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. | Foto: iStock

Aqui, a “nova classe média” do novo milênio já foi pulverizada na crise gerada pelo populismo econômico em 2015-18. Mas, em compensação, eis que na nova crise da pandemia cresce uma nova classe, de autônomos e micro-empreendedores, lutando com garra e criatividade, gerando empregos e renda de que tanto falam os políticos. Esta é hoje a nova classe que merece apoio e aplausos.

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