Imagem ilustrativa da imagem Velho
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Não me chame de idoso, prefiro ser chamado de velho. Nem existe o verbo idosar, só envelhecer.
Velho é palavra mais gostosa, tem o "v" de vida – e rima com joelho e artelho, essas partes do corpo que a gente mais sente quanto mais velho.
Além disso,"idoso" parece ser apenas quem acumulou idade, e assim um poste de concreto também é idoso, mas velha é só mesmo a madeira com suas rachaduras, a caneca com suas trincas, o canivete herdado do avô, a tua cara no espelho.
Idoso ocupa sua vaga no estacionamento, mas só o velho percebe que quase sempre estão vazias as vagas para deficientes (não podiam ser mais vagas para idosos e menos para deficientes?).
Idoso só tem idade, velho tem experiência, o que é uma vantagem muito relativa, considerando que, quando mais experiência se tem, menos tempo se terá.
Idoso é paciente, no sentido clínico da palavra, mas velho é doente mesmo. Tenho bronca da palavra "paciente" porque, num país com saúde pública tão deficiente, parece sugerir que temos de continuar tendo paciência com as deficiências do sistema. Aliás, só velho fui perceber que os governos – federal, estadual e municipal – só não são deficientes na cobrança de impostos, taxas e tributos, sempre pontuais. Já a prestação de serviços ao público, pagos antecipadamente com os impostos, sempre atrasa ou nem é entregue. Assim vivemos sempre numa ditadura tributária.
Só velho, curtido pelas desilusões e amaciado pelas decepções, consegue ver que todas as ideologias, que propõem mudar o mundo, almejam por isso o poder e, ao chegar ao poder, passam a cometer os mesmos vícios dos regimes anteriores: governo para poucos, nepotismo, corrupção, culto de personalidades, controle da imprensa, manipulação de eleições, seja Trump ou Putin.
Aliás novamente, o velho se renova mudando de crenças, melhorando a visão de mundo, embora existam os que chegam aos noventa ainda acreditando em coisas gagás como liberalismo e socialismo ou, traduzindo, liberdade irresponsável e igualdade autoritária. E dá um cansaço no velho ouvir jovens discutindo quem é melhor, Lula ou Bolsonaro... O velho então só pede a Deus (que não vota nem toma partido) que nos dê mais que velhas opções ou novas ilusões, mais essências do que aparências.
Porque o jovem olha, o velho vê. O jovem olha os fatos, o velho procura as causas. O jovem olha os corpos, o velho procura os olhos. O jovem se empanturra, o velho degusta. O jovem se apaixona, o velho acarinha. O jovem se inflama, o velho pondera. O jovem quer conquistar, o velho quer compartilhar. O jovem opina, o velho pergunta. O jovem determina, o velho consulta. Jovem leva tudo a sério, velho leva tudo na flauta, fazer o quê?
O jovem tem força, tem ânimo, tem sonhos e esperanças (que podem ser fontes de frustrações) e o velho tem, além da serena certeza da morte, a gostosura de gozar lentamente cada prazer...
Mas tem coisas que irritam o velho. Coisas fora do lugar, por exemplo. Com pouco tempo de vida, o velho tem de perder tempo procurando aquela coisinha que devia estar ali e um jovem, com a leviandade corriqueira dos jovens, tirou do lugar! Como prescreveu Manuel Bandeira, o velho quer "a casa limpa, a mesa posta, cada coisa em seu lugar".
Mas também há prêmios para o velho: os netos! E outro dia, quando fiquei bravo porque alguma coisa sumiu do lugar, um neto me reptou:
- Porque você fica tão bravo por causa duma coisinha, vô?
- Porque – gritei – é uma coisa que uso todo dia, então é uma coisona!
Aí ele murmurou que é bom quando some alguma coisinha:
- Você até parece moço, vô, quando fica bravo.
Então: não é um prêmio ter netos? Aliás, cheguei à velhice sem jamais ter visto um jovem com netos. Será que a natureza é sábia por ser velha?

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