Vai trabalhar, vagabundo!
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sexta-feira, 06 de abril de 2018

O caminhão passa pelo caminhante e o ajudante do motorista grita: - Vai trabalhar, vagabundo!
O homem de boné amarelo olha em volta, ninguém, então o grito foi para ele mesmo. E, como o caminhão parou num bar, ele volta e vai até lá. O moço está levando carrinho de engradados para o bar e o homem de cabelos quase brancos pergunta sorrindo: - Por que o senhor acha que não trabalho?
O moço já meio se apruma ao ser chamado de senhor e, lembrando do boné amarelo, pede desculpas ao homem que porém insiste: - Por favor me diga porque acha que não trabalho.
O motorista vem do bar com outro carrinho de engradados vazios, o moço pede desculpa, não quis ofender, foi só modo de dizer, mas o homem retruca: - O senhor não disse, o senhor gritou.
Eu te avisei dessa brincadeira besta, fala o motorista indo para o caminhão. Também estou trabalhando, fala o homem, e o moço pisca procurando pensamento:
- Pensei, né, que o senhor estava só caminhando.
- E estava, caminhando e trabalhando.
- O senhor é da prefeitura?
- Sou escritor. Caminho pensando no que vou escrever e apontando caneta na gola da camiseta vou anotando, depois em casa escrevo no computador o que anotei.
- Ah... o moço abre boca de entendimento Escritor trabalha assim, né...
- Sim, mas não só isso, depois de escrever é preciso revisar, reescrever, revisar a reescrita. Meu maior romance reescrevi cinco vezes em cinco anos, durante todo um mês cada vez, e, depois, revisei a prova de impressão da editora, fazendo uma média de dez alterações por página. Como eram quinhentas páginas, só nessa última revisão foram cinco mil alterações.
- Ah... agora a boca do moço é de espanto Dá trabalho, hem? brilho no olhar Mas ganha bem, né? e sorri aliviado, ora, o homem não só não deu bronca como até parece bom sujeito, então, que mal lhe pergunte:
- Como é que a gente faz pra ser escritor?
- Não faz, é um dom da loteria genética, você nasce assim. E não consegue ser outra coisa, então também é uma prisão. Você tem de estar à disposição pra escrever, quando as ideias vêm você tem de anotar e escrever e reescrever e...
Vichi, murmura o moço, deve ser cansativo, hem:
- Por isso o senhor caminha, né, pra descansar?
- Não, caminho trabalhando como falei, anotando as ideias e... Você, por exemplo, me deu ideia para uma crônica.
- É mesmo? o olhar mais brilhante Então mereço um troco?
- Não, mas mostra que tem jeito pra comerciante.
- É verdade, sô! o moço ri Eu vivo pensando em abrir um bar!
- Então. Boa sorte!
O motorista buzina, o moço vai, o homem tira bloquinho do bolso e anota. Antes do caminhão partir, o moço põe a cabeça na janela:
- Vamos trabalhar, mermão!
O homem acena, o caminhão buzina, a manhã continua.
...
Ano depois, toca o telefone:
- Escritor? Aqui sou eu! Consegui seu telefone pra contar que abri aquele bar!
- Como? Quem é?
- Sou aquele cara que te mandou trabalhar, vagabundo! Pra contar que abri o Bar Boné Amarelo!
- Ah, lembro! Mas por que Boné Amarelo?
- Uai, não lembra? O senhor estava de boné amarelo!
Silêncio.
- Alô? A-lô? Taí, mermão?
- Estou aqui. Limpando um cisco do olho. Então dá o endereço.
- Anota aí, o senhor gosta de anotar, né.
- Me chame de você.
- É que o senhor é um escritor...
Mas de boné amarelo, de boné amarelo...



