Para o menino naqueles anos 50, a rodoviária de Londrina era uma grande confusão, com mais gente sentando pelo chão, entre malas e sacas, do que no banco comprido que se estendia diante dos ônibus com bagagens amarradas na capota. Ele já tinha ouvido que fazendeiros calçavam botas, sitiantes botinas e os da cidade sapatos, e ali ele via todos esses tipos de pés.

No ônibus da Viação Silva, a seu lado sentou um homem de sapatos brilhantes e paletó. Depois na estrada de terra o ônibus trepidava e rangia tanto que a mãe falou alto “Deus nos proteja” e vários ecoaram “amém”.

Conforme passavam jipes levantando poeirão, os passageiros fechavam janelas e depois voltavam a abrir devido ao calorão, e lá fora só passavam matas e cafezais. Aí começou o pinga-pinga, gente dando com a mão na beira da estrada pra entrar no ônibus, pagando ao cobrador conforme o trecho. E logo o corredor encheu de gente e o céu como que não gostou, trovoou e desabou baita tempestade.

O motorista resolveu parar e esperar o toró passar, pois mal podia enxergar, mas o de-paletó falou que tinha compromisso à noite, o cobrador falou que então era preciso falar com São Pedro. A chuva metralhou a capota até que amainou, o ônibus voltou a rodar agora sem poeirão mas no calorão com janelas fechadas pois chovia ainda, e o cobrador falou ó, vai encher aquela baixada.

Sentado no banco do cobrador diante do para-brisa, o menino viu o motorista parar o ônibus diante do atoleiro coalhado de poças dágua; viu o motorista suspirar fundo fazendo o sinal-da-cruz e perguntar que é que achava o cobrador, que falou sei eu, sabe Deus, e o motorista engatou, o ônibus roncou forte e se meteu no atoleiro, até derrapar e encalhar com a roda numa valeta.

Debaixo de chuva fina motorista e cobrador com enxada raparam barro diante das rodas, com facão cortaram mato pra cobrir a terra, depois entraram e falaram que, pra desencalhar de vez, era bom todo homem ajudar a empurrar, e até uma mulher de calças desceu do ônibus.

Empurrado o ônibus roncou, quase chegando a desencalhar mas não, então o cobrador entrou de novo pra falar com o de-paletó, se tinha compromisso era melhor ajudar a empurrar ou iam pernoitar ali.

O homem saiu resmungando e também duas mulheres saíram, rindo e arrepanhando as saias, uma até dizendo que aquilo ia ser inesquecível. Daí o ônibus roncou que roncou, até chacoalhou e enfim avançou, parou pra todos entrarem de volta, o de-paletó todo embarreado e xingando, tinha caído “de boca” no barro conforme o cobrador contou baixinho ao motorista. E com muito jeito explicou ao homem que, empurrando em encalhe, é preciso cuidado pra não cair no vazio quando o ônibus avança de repente. Mas, o motorista emendou, “isso da próxima vez o senhor já sabe, né”, e o homem só bufou bravo.

A mãe do menino tentava não sorrir, o cobrador assobiava baixinho e o ônibus parecia que até roncava melhor. Depois encalhou de novo e o de-paletó desceu logo pra empurrar, o cobrador lhe deu os parabéns por “participar de uma viagem inesquecível”, aí a mãe riu e deixou o menino ir empurrar também, e ele pisou no barro se sentindo homem.

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