Quando pai me levou ao aeroporto de Londrina acho que em 1955, eu devia ter cinco anos e a pista ainda era de terra, era preciso esperar baixar o poeirão antes dos passageiros saírem do avião.

Depois fomos à inauguração da pista pavimentada, em 1956, e aplaudiram quando avião pousou, perguntei por que, ele disse que estavam aplaudindo o progresso, primeira vez que ouvi esta palavra.

No salão de espera gente lia jornais – e hoje o aeroporto nem tem mais livraria, não se vê gente lendo; mas, se você passar pelado pelo salão de embarque, talvez ninguém repare, todos olhando celular. Até escrevi um sonet, um soneto para a internet:

“Eu queria ser um tablet / para ser acariciado / tão tocado e tão

cuidado / abrigado na internet // Queria ser celular / para ser sempre

atendido / com a presteza devida / em todo tempo e lugar // Se fosse

computador / queria ser um modelo / que nunca pegasse vírus // Me

conformo com que sou / um modelo já bem velho / de um ser que solta

suspiros...”

Vamos em frente, ou melhor, vamos pra fila. É fila no chequim, no embarque, no túnel para o avião... e houve também a fila para a revista policial, quando deixei na esteira rolante a maleta e o celular. O policial apontou a fivela de metal do cinto, falei que o cinto já passou por outras revistas sem ser detectado, ele diz que o novo detector é novo e detecta tudo, tenho de tirar o cinto.

Resmungo uma palavra – idiotas – e ele se ouriça, diz que posso ser preso por desacato, explico que não me referi aos policiais ali, mas aos terroristas que explodiram aquelas torres em Nova Iorque em 2001, motivando as revistas severas desde então. Ah, bom, ele diz aliviado, e que eu tenha uma boa viagem.

Tenho é sorte de não ficar no assento do meio, entre o do corredor e o da janela, o assento-sanduíche onde se vai espremido que nem salsicha em cachorro-quente.

Na escala em São Paulo, espero o novo embarque e as novas filas ouvindo o irritante serviço de som. E tome reposicionamento da aeronave!

Se você não atenta, pode se tornar um desportado, que só na horinha do embarque vai perceber que esperou no portão errado.

Pra relaxar, fico vendo gente passar, o maior espetáculo grátis da Terra depois dos poentes. Depois vamos em frente, para novas filas, inclusive a fila-boba, quando o avião aterrissa e muita gente fica esperando em pé no corredor como se com isso fosse ganhar um prêmio.

Daí vem a última fila, na esteira de devolução de bagagem, onde vou esperar a Eila, minha mala, torcendo para ela não ter ficado entre as 3% de malas extraviadas. Mas ah, ei-la, e vamos em frente, ou melhor, vamos para a fila do táxi, e em seguida para as filas de carros nos engarrafamentos.

O taxista pergunta de onde venho, digo que venho da capital da terra-vermelha, Londrina, ele porém pergunta se Londrina não é a Capital do Café.

Digo que foi mas por causa da terra-vermelha, e ele ri, aí lembro do menino vendo aquele avião descendo no poeirão vermelho, digo que a vida é uma viagem e ele diz é, uma viagem sempre com o taxímetro ligado, o que não deixa de ser filosófico. E vamos em frente.

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