Uma história de amor
Quando nos conhecemos, eu vinha de dois casamentos e ela também era descasada
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de maio de 2019
Quando nos conhecemos, eu vinha de dois casamentos e ela também era descasada
Domingos Pellegrini 
Dalva aniversaria e resolvi lhe dar flores: plantei girassóis e assim ela poderá ver seu presente por muitos dias. Vamos para vinte anos de casamento e nossa história confirma o poder dos acasos e das coincidências.
Quando nos conhecemos, eu vinha de dois casamentos e ela também era descasada. Eu vivia bem recluso e há anos não ia mais a bares noturnos, enquanto ela nem ia a bares, e entretanto nos conhecemos num bar. Fui lá porque era bar aberto pelos irmãos do amigo Apolo Mário, e Dalva também foi a pedido de uma amiga, Inêz, cujo marido, Devancir, tocava lá no conjunto Os Beto. Sempre gostei tanto de dançar que danço mesmo sozinho, é só música começar, e vi então que não estava sozinho nisso, ela também dançava assim e sorrindo feliz que só vendo.
Em mais uma coincidência, ao lado dela estava a Cleo, mulher do amigo Horácio, que também tocava nos Beto, e Cleo perguntou se ela não estava vendo eu olhando tanto para ela. Não, ela falou, pouco estava vendo porque tinha esquecido os óculos no carro. Mas quem olhava? Cleo disse que era um amigo, escritor conhecido, ela não conhecia? Não, não conhecia, lia bastante mas nunca tinha lido nem sabia da existência de Domingos Pellegrini.
Enquanto isso, eu perguntava ao Apolo quem era a dançante sorridente, ele não sabia, então fui até ela e lhe falei no ouvido: - Vou no carro calçar sapatos e já volto pra gente dançar.
Ela achou que era a mais diferente das cantadas, mas, na verdade, é que eu estava de tênis mas tinha sapatos no carro, muito melhores para dançar. Daí dançamos e fui descobrindo que, além de bem bonita, eu tinha nos braços uma mulher inteligente como só e cativante como que. Trocamos cartões e eu disse te-ligo mas não liguei, ela ligou depois de três dias, perguntando porque eu não tinha ligado. Falei que era uma longa história, e ela falou que eu podia contar enquanto a gente jantasse.
No jantar, contei que não queria mais ninguém, estava cansado e ferido de tanto ferir mulheres, não queria mais procurar ninguém. Mas - ela replicou – nós não nos procuramos, nós nos achamos. Ficamos nos olhando até que perguntei: então a gente ia se ver de novo? Bem, ela falou, um novo encontro decerto não seria só para se ver, e ela queria deixar bem claro o seguinte:
Só se for pra namorar firme.
Passamos a nos encontrar na minha casa, na sua casa, convivendo com nossos filhos, até que um dia ela, saindo de minha casa, suspirou fundo:
- Estou cansada de ir e vir com sacola de roupas. Você não acha que a gente devia morar juntos?
Sim, respondi imediatamente, e ela:
- Mas só se for pra casar. Quer casar comigo?
Sim, respondi imediatamente, sabendo que, no fundo, já estávamos casados desde a primeira dança. E viajamos, saltamos de paraquedas, mergulhamos no mar, plantamos árvores, cuidamos de jardins, cozinhamos juntos, brincamos com os netos e juntos nos espantamos e rimos do mundo nos noticiários. Vimos tantos filmes, caminhamos muito, percorremos riachos, chorando velamos pessoas, enterramos cachorros, fizemos muitas fogueiras vendo belas luas, construímos nossa casa, cuidamos do quintal com a melhor das ferramentas, a alma, e nossa vida está sempre florescendo.
Ela é catorze anos mais nova, e decerto embarcarei antes para aquela viagem que só pode ser solitária. Mas cada dia traz a certeza de que minha melhor viagem é o dia a dia com essa mulher com quem continuo “namorando firme”. E ela me trouxe tantos amigos que até mudei meu nome. Ligando para algum, não é como Pellegrini que me identifico, é assim:
- Alô, aqui é o Domingos. O Domingos da Dalva.


