Uma cocada na mão se transforma em segunda comunhão
Vó Tiana fazia cocadas brancas, mas aquelas eram morenas como o menino, e mãe perguntou se eram mesmo feitas por sua mãe
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de outubro de 2025
Vó Tiana fazia cocadas brancas, mas aquelas eram morenas como o menino, e mãe perguntou se eram mesmo feitas por sua mãe
Domingos Pellegrini 

A foto, feita em estúdio e já publicada aqui, foi logo depois da minha primeira comunhão, e também logo depois que passei pelo primeiro carnaval.
Foi em Assis, onde mãe levou pra ver o carnaval de rua, ainda tão espontâneo que nem era na avenida mas numa rua lateral, o povo nas calçadas vendo a passagem de caminhonetas e jipes enfeitados a buzinar, com gente fantasiada soltando serpentinas e lançando mãozadas de confetes, porém para o menino tudo parecia bem sem graça.
Mãe tinha me proibido aquilo em que eu via graça, as bisnagas de plástico para lançar jatos de água de cheiro ou com corantes, “coisa de moleques” mas por isso mesmo era o que eu queria. Então lancei logo a meia dúzia de serpentinas que ela tinha dado recomendando não lançar todas logo.
Depois também logo fiquei sem ter o que fazer no meio daquela gentarada a pé, parecendo ver tanta graça nos que passavam de carro.
Também passava um ou outro fantasiado a pé, e o que mais me encantou foi um grupo de moços mal fantasiados de mulher, com saias malajambradas e sutiãs meio pendentes, mas passaram depressa e continuei na minha triste solidão, até porque, com a baixa estatura de menino, mal via muito daquilo tudo.
Então vi ao lado um menino diferente de todos por estar descalço (como o Benjamim que, colega no grupo escolar, tinha morrido de tétano por pisar descalço num prego, naquele tempo sem postos de saúde, chegando a ir mancando à escola, depois faltando para sempre).
Agora o menino descalço tinha diante da barriga um tabuleiro de madeira suspenso por alça no pescoço, e no tabuleiro estavam cocadas bem enfileiradas. Puxei mão da mãe, para ela baixar os olhos e ver as cocadas, mas ela, olhando o que chamavam de corso, aquele desfile de carros e gente fantasiada, ela só me deu um tapinha na mão.
Insisti lhe chacoalhando a mão, então ela viu o menino parado ali a meu lado com esperança de vender suas cocadas. Ela disse não, sabe lá daonde vem isso, e o menino disse ah, dona, é minha mãe quem faz.
Vó Tiana fazia cocadas brancas, mas aquelas eram morenas como o menino, e mãe perguntou se eram mesmo feitas por sua mãe, ele só balançou a cabeça, sim, sim. Ela pagou e o menino guardou o dinheiro num bolso das calças curtas, aí fui pegar uma cocada e deixei cair no chão.
Ela ralhou comigo e ele agachou e catou, deixando num canto do tabuleiro. Peguei outra, e ele se foi. Voltou tempo depois, para ficar a meu lado também espiando um ou outro carro enfeitado ou folião fantasiado, e vi que no tabuleiro só restava uma cocada.
Ele viu que eu olhava, falou pegaí, não peguei mas logo, vendo que mãe estava distraída, peguei, mordi, ofereci a ele que, vendo ela ainda distraída, mordeu também, e ficamos os dois comendo nossa cocada no meio daquele carnaval.
Depois ele disse tiau, me dando um tapinha no ombro, e se foi, e eu fiquei lembrando do padre do catecismo: “comunhão é não só estar com Jesus mas também com todos os outros”. E, ainda com o gosto da cocada na boca, senti que aquela foi minha segunda comunhão.


