Um música que levantou gente e depois foi bastante esquecida
Advertido por Vandré para não fazer suas brincadeirices usuais, Jair Rodrigues interpretou soberbamente "Disparada" no Festival de MPB
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sábado, 22 de fevereiro de 2025
Advertido por Vandré para não fazer suas brincadeirices usuais, Jair Rodrigues interpretou soberbamente "Disparada" no Festival de MPB
Domingos Pellegrini 

O Brasil em 1966 se dividiu entre quem torcia por "Disparada" de Geraldo Vandré ou por "A Banda" de Chico Buarque, que acabaram ganhando empatadas o Festival de MPB, duas músicas que porém seriam um tanto empoeiradas pelo tempo.
Advertido por Vandré para não fazer suas brincadeirices usuais, Jair Rodrigues interpretou soberbamente "Disparada", que teve arranjo caipiramente solene, até com percussão de queixada de burro, e no país inteiro levantava-se gente a identificar a música de Vandré com resistência à ditadura. Nesse afã político, porém, via-se mais do que realmente se acha na letra de Vandré para a pungente beleza da melodia de Theo de Barros.
O cantador se apresenta dando-se importância: “Prepare o seu coração / pras coisas que eu vou contar / eu venho lá do sertão / e posso não lhe agradar”. O sujeito se vê como herói: “Aprendi a dizer não / ver a morte sem chorar / e a morte, o destino, tudo / estava fora de lugar / eu vivo pra consertar”.
Essa crítica do mundo e essa rebeldia eram típicas dos heróis brechtianos, criados pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht então em grande evidência. E o vaqueiro de Vandré se acha preparado para mudar o mundo porque “se montou”, ou seja, tomou consciência e rumo próprio, deixando de ser boi na boiada: “Na boiada já fui boi / mas um dia me montei / não por um motivo meu / ou de quem comigo houvesse / que qualquer querer tivesse / porém por necessidade / do dono de uma boiada / cujo vaqueiro morreu”.
Dessa confusa explicação extrai-se que o sujeito é vaqueiro, acrescendo assim uma distinção trabalhadora ou proletária ao herói. E ele continua encantado com si mesmo: “Boiadeiro muito tempo / laço firme, braço forte / muito gado segurei / seguia com num sonho / boiadeiro era um rei”.
O herói porém acorda para um novo estágio de consciência: “Mas o mundo foi rodando / nas patas do meu cavalo / e nos sonhos que fui sonhando / as visões (foram) se clareando / até que um dia acordei”. E se recusa a trabalhar para patrão “de gado e gente”, supõe-se que fazendeiro a tratar mal seu pessoal: “Então não pude seguir / valente lugar-tenente / de dono de gado e gente / porque gado a gente marca / tanta, ferra, engorda e mata / mas com gente é diferente”.
O sujeito entretanto assume um autoritarismo excludente: “Se você não concordar / não posso lhe desculpar / não canto para agradar / vou pegar minha viola / vou deixar você de lado / vou cantar noutro lugar”.
Repete que já “fui boi” e “já que um dia montei / agora sou cavaleiro / laço firme, braço forte / de um reino que não tem rei” – o que é uma alusão tanto à democracia quanto ao socialismo, engajando portanto tanto democratas a querer a volta da democracia quanto socialistas a querer uma revolução social. E então, no festival e diante de tevês em todo o país, gente se levantava a bradar de punhos cerrados o “la lalaiá” final.
Hoje, olhando bem, dá para ver que o clima político e o mito do herói proletário criaram a aura e a garra para uma música que chegou aos corações fazendo sentir bem mais do que realmente diz.
E por que tal título? "Disparada" é quando estoura a boiada: o título seria então metáfora de revolução popular contra a ditadura militar? Seria mais uma pretensão de uma letra pretensiosa para uma melodia primorosa, de qualquer forma entretanto dando saudade dos velhos festivais.


