Um lago cheio de histórias
Em vez de cerimônia oficial de inauguração, o prefeito apenas chamou o bispo Dom Geraldo Fernandes para um passeio de bote.
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2019
Em vez de cerimônia oficial de inauguração, o prefeito apenas chamou o bispo Dom Geraldo Fernandes para um passeio de bote.
Domingos Pellegrini 
O pai falou ao menino: janta logo que vamos ver a inauguração do Igapó. O menino trepou na carroceria do caminhão cheia de gente e rumaram para o tal Igapó, que ele nem viu pois ficaram de longe vendo apenas os fogos de artifício. Era 10 de dezembro, aniversário da cidade em 1959, e o menino só veria o lago alguns anos depois.
Era um lago cercado de mato, e diziam que era tão longe que ninguém iria lá, por isso o prefeito Antonio Fernandes Sobrinho tinha sido muito criticado durante a construção da barragem. Tanto que, além dos fogos para o povo, em vez de cerimônia oficial de inauguração, o prefeito apenas chamou o bispo Dom Geraldo Fernandes para um passeio de bote.
Quando o menino se tornou jornalista, um dia na redação alguém disse que devia existir lá um monumento ao prefeito, com letras perenizando em mármore sua visão e determinação. Hoje, está claro que o monumento ao prefeito sempre esteve lá, é o próprio lago.
Recém casado, o jornalista ia com casais amigos pescar na beira do lago, ainda cercado de mato. E um japonês lançava uma linha de pesca, que puxava correndo pela margem. Como isca, usava uma colher sem cabo, cujo brilho, revelou, imitaria um lambari que algum peixe ainda morderia. Fingimos que acreditamos, para não desiludir o pobre homem. Até que, um dia, ele chegou à redação da Folha com um peixe de 11 quilos e pouco, e sua foto com o bitelo sairia na primeira página. O Igapó passou então a significar, para o jornalista, crença e confiança, desde o prefeito ao pescador.

Confiança tinham de sobra as mulheres que chegaram ao jornal de sandálias nos pés e, nas mãos, sapatos embarreados envoltos em sacos plásticos. Contaram que moravam no Jardim Cláudia, ali do lado do lago, e nos dias de chuva tinham de amassar barro para pegar o circular na Avenida Higienópolis, pois as ruas ficam intransitáveis para os ônibus. A notícia saiu com destaque, e tempo depois as mulheres voltaram – calçando sapatos – para agradecer ao jornal pelo asfalto que lá chegou. Uma deu no jornalista um beijo estalado na bochecha, dizendo Deus te ajude, seo moço, nas suas letras. Ele lembraria disso alguns anos depois, ao ganhar seu primeiro concurso literário, e o Igapó passou a lhe significar também luta e conquista.
Antes ainda ou já depois disso – a memória afetiva se confunde - o lago continuou cercado de mato, até que outro prefeito empreendedor, Dalton Paranaguá, em 1970 começou sua urbanização, com margeamento e trilhas, além de jardins criados por Burle Marx. Só então a cidade começou a descobrir seu lago, tanto que ele cresceu com outros lagos ribeirão acima, como a cidade crescia se fazendo metrópole. Então o Igapó passou a significar também transformação.
Em 1996, o lago foi esvaziado, e muita gente foi chafurdar na lama para pegar peixes de palmos. O lago já tinha em seu entorno equipamentos culturais e esportivos – e, em volta dos pioneiros bairros Cláudia e Guanabara, começavam a se erguer os edifícios de Gleba Palhano.
Tudo isso se baseia entretanto numa simples e robusta represa, construída há quase 70 anos, pela própria Prefeitura, sem licitação nem corrupção. Ao contrário: caminhões chegavam lá e descarregavam areia, pedriscos ou tijolos, depois iam embora sem ao menos revelar o nome do doador. Talvez também por isso a represa esteja lá, como se abençoada, sem uma rachadura, sem um enguiço, na sua simplicidade serviçal que resistiu a grandes enchentes e pequenos prefeitos.
Igapó em Tupi significa água que vaza, rio que transborda. E o escritor agora vê que o lago transborda de histórias. Quantos casais ali se encontraram gerando famílias. Quanta evolução se vê até nos garapeiros. Tanta gente, que mora nas alturas, pode ali pisar na terra, sentir o chão, olhar o poente, lavar a alma. O Igapó é símbolo de uma cidade de visão, que crê, confia, luta, conquista e se transforma, aprende com a História e aposta no futuro.


