Em entrevista sobre seu show Quero Que Vá Tudo Pra Inferno, Arrigo Barnabé revelou que canta com gritada voz rouquenha porque, além de ser sua marca sonora, disfarça a desafinação. Então pensei: vou só pra prestigiar o Arrigo, porque o show decerto vai ser chatinho, ele cantando daquele jeito... Mas o show foi excelente, com Arrigo alternando aquela voz arrigosa com uma voz suave e afinada, criando um contraste muito expressivo. Com apenas dois músicos, seus arranjos criativos realçam as letras tão simples e tocantes de Erasmo e Roberto, fazendo do show uma celebração de casamento entre simplicidade e criatividade, para uma bela derrota do meu preconceito.

Caso de cabrunhoso preconceito foi também com o Omar, no grupo de teatro universitário lá em 1968. Ele era o piorzinho da trupe, tímido e fanhoso, constrangido em cena, braços pensos. Era salvo do ridículo porque encarnava um personagem patético, parecendo assim apropriado para o papel. Pobre Omar, era de uma cidadezinha do interiorzão e decerto para lá voltaria a vidinha omarina. Pobre Omar.

Mas década depois, em Curitiba encontro Omar, abraços, lembranças, ele contando que agora morava ali em Curitiba, e pensei quem diria, o Omar lá do interiorzão. Olhando o relógio, falou que precisava voltar ao colégio - para dar aula do que, perguntei, e, naquele seu jeito sem jeito, Omar explicou que dirigia o colégio, é, tinha aberto um colégio. Perguntei quanto alunos tinha e quase caí de costas, era um baita colégio! Nos abraçamos, ele se foi e fiquei olhando sua timidez até no andar, os braços ainda pendidos. Mas não era mais o pobre Omar...

Boa história sobre preconceito é a de Desmond Doss, no filme Até o Último Homem (título que brinca com a famosa ordem de Hitler – lutar até o último homem – contrapondo salvar até o último homem). Na Segunda Guerra, o norte-americano Doss se alista mas, no treinamento, diz que não pode pegar em arma, por acreditar que não se deve matar, conforme sua religião. Então é advertido, humilhado, castigado, espancado (recusando-se a dedar os agressores) e enfim preso e julgado, porém inocentado. (Assim se tornou o pioneiro da objeção de consciência, que permitiria abster-se da luta direta e servir de outros modos.)

Dão-lhe saída honrosa para voltar para casa mas ele diz não, é voluntário, quer servir a pátria como todos. Como enfermeiro desembarca em Okinawa para uma das mais terríveis batalhas da guerra. Seu regimento tem a missão de tomar um platô decisivo, só acessível escalando alta escarpa vertical, e até ali Doss ainda é tratado com escárnio por muitos que salvará logo em seguida.

Tomam o platô a muito custo mas, no dia seguinte, contratacados recuam deixando muitos mortos e feridos, e cai a noite. Doss, em vez de se salvar, fica com os feridos, carrega um até a escarpa e faz descer por cordas. Depois outro... O homem desarmado, que receberia a mais alta das condecorações por bravura em combate, sempre contaria que salvava um, aí pedia a Deus para conseguir levar mais um, mais um, Senhor...

Durante toda uma noite, agindo sozinho, Doss salvou 75 colegas, se-ten-ta e cin-co. Estupor na tropa. E depois, para contratacar, a tropa quer que o desarmado esteja com eles. Ele vai, quando outro qualquer poderia alegar cansaço extremo, e tomam o platô mas são novamente contratacados - e Doss, se continua sem pegar em arma, porém até chuta granadas para, como sempre, salvar colegas. Ferido, acaba descendo a mesma escarpa em maca baixada por cordas.

E o pacífico e sempre tranquilo Desmond Doss se torna um daqueles heróis que, quem só olhar por fora com os olhos do preconceito, nem diz que é herói. Morreu em 2016, aos 87 anos, idolatrado pelos que cultuam a coragem e reverenciado pelos que cultuam a paz, mas sempre dizendo que nada fez, nada, quem fez tudo foi Deus.

mockup