Três casos de preconceito
Desmond Doss foi tratado com escárnio por muitos que salvou logo em seguida
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de julho de 2019
Desmond Doss foi tratado com escárnio por muitos que salvou logo em seguida
Domingos Pellegrini 
Em entrevista sobre seu show Quero Que Vá Tudo Pra Inferno, Arrigo Barnabé revelou que canta com gritada voz rouquenha porque, além de ser sua marca sonora, disfarça a desafinação. Então pensei: vou só pra prestigiar o Arrigo, porque o show decerto vai ser chatinho, ele cantando daquele jeito... Mas o show foi excelente, com Arrigo alternando aquela voz arrigosa com uma voz suave e afinada, criando um contraste muito expressivo. Com apenas dois músicos, seus arranjos criativos realçam as letras tão simples e tocantes de Erasmo e Roberto, fazendo do show uma celebração de casamento entre simplicidade e criatividade, para uma bela derrota do meu preconceito.
Caso de cabrunhoso preconceito foi também com o Omar, no grupo de teatro universitário lá em 1968. Ele era o piorzinho da trupe, tímido e fanhoso, constrangido em cena, braços pensos. Era salvo do ridículo porque encarnava um personagem patético, parecendo assim apropriado para o papel. Pobre Omar, era de uma cidadezinha do interiorzão e decerto para lá voltaria a vidinha omarina. Pobre Omar.
Mas década depois, em Curitiba encontro Omar, abraços, lembranças, ele contando que agora morava ali em Curitiba, e pensei quem diria, o Omar lá do interiorzão. Olhando o relógio, falou que precisava voltar ao colégio - para dar aula do que, perguntei, e, naquele seu jeito sem jeito, Omar explicou que dirigia o colégio, é, tinha aberto um colégio. Perguntei quanto alunos tinha e quase caí de costas, era um baita colégio! Nos abraçamos, ele se foi e fiquei olhando sua timidez até no andar, os braços ainda pendidos. Mas não era mais o pobre Omar...
Boa história sobre preconceito é a de Desmond Doss, no filme Até o Último Homem (título que brinca com a famosa ordem de Hitler – lutar até o último homem – contrapondo salvar até o último homem). Na Segunda Guerra, o norte-americano Doss se alista mas, no treinamento, diz que não pode pegar em arma, por acreditar que não se deve matar, conforme sua religião. Então é advertido, humilhado, castigado, espancado (recusando-se a dedar os agressores) e enfim preso e julgado, porém inocentado. (Assim se tornou o pioneiro da objeção de consciência, que permitiria abster-se da luta direta e servir de outros modos.)
Dão-lhe saída honrosa para voltar para casa mas ele diz não, é voluntário, quer servir a pátria como todos. Como enfermeiro desembarca em Okinawa para uma das mais terríveis batalhas da guerra. Seu regimento tem a missão de tomar um platô decisivo, só acessível escalando alta escarpa vertical, e até ali Doss ainda é tratado com escárnio por muitos que salvará logo em seguida.
Tomam o platô a muito custo mas, no dia seguinte, contratacados recuam deixando muitos mortos e feridos, e cai a noite. Doss, em vez de se salvar, fica com os feridos, carrega um até a escarpa e faz descer por cordas. Depois outro... O homem desarmado, que receberia a mais alta das condecorações por bravura em combate, sempre contaria que salvava um, aí pedia a Deus para conseguir levar mais um, mais um, Senhor...
Durante toda uma noite, agindo sozinho, Doss salvou 75 colegas, se-ten-ta e cin-co. Estupor na tropa. E depois, para contratacar, a tropa quer que o desarmado esteja com eles. Ele vai, quando outro qualquer poderia alegar cansaço extremo, e tomam o platô mas são novamente contratacados - e Doss, se continua sem pegar em arma, porém até chuta granadas para, como sempre, salvar colegas. Ferido, acaba descendo a mesma escarpa em maca baixada por cordas.
E o pacífico e sempre tranquilo Desmond Doss se torna um daqueles heróis que, quem só olhar por fora com os olhos do preconceito, nem diz que é herói. Morreu em 2016, aos 87 anos, idolatrado pelos que cultuam a coragem e reverenciado pelos que cultuam a paz, mas sempre dizendo que nada fez, nada, quem fez tudo foi Deus.


