Tremtopia
Lembranças ferroviárias e uma utopia nacional sobre trilhos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Lembranças ferroviárias e uma utopia nacional sobre trilhos
Domingos Pellegrini 

Só não se pode dizer que as ferrovias foram um salto na História porque trem tem trilhos e é aferrado ao chão – até agora, né, pois no Japão e na China já há ou logo haverá trens com levitação magnética, que não tocam no chão a mais de 450 km por hora, e já está em testes trem que chegará a mais de mil por hora, um trem avião!
O Brasil perdeu o trem da História ao trocar o modelo ferroviário britânico pelo modelo rodoviário norte-americano, mas, quando menino, ainda vivi a aventura do trem-leito Londrina-São Paulo, quando não havia rodovia asfaltada até lá.
Eram duas cabines, uma para nossos pais e outra para mim e a irmã Anavaly, que logo preferiu o leito de baixo e achei ótimo, no de cima já me encarapitei. Mas antes de dormir ouvindo a trec-trec do trem, fomos ao restaurante. Que chique, para quem só conhecia as mesas do refeitório da Pensão Alto Paraná da mãe! Talheres pesados, guardanapos de pano branquinhos, cardápio com letras, como dizer, finamente misteriosas pois eu não sabia ler. E a comida também seria inesquecível, inclusive por ela dizer que o risoto era “de arroz sobrado com mistura pra tapear”.
Depois também inesquecíveis, mais de década depois, seriam os trens de viagem mochileira com o amigo Arnaldo Bertone, em janeiro de 1969. Fomos colegas no Tiro de Guerra no ano anterior, enquanto em nossa cabeça comunista vivia Che Guevara: sonhávamos com guerrilha que, como em Cuba, derrubaria a ditadura militar e instalaria uma ditadura “do proletariado”. Então, como se sofrimento fosse treinamento guerrilheiro, saímos de Londrina pela ferrovia RVPSC e fomos até Bauru, daí partindo para périplo de semana pelas ferrovias Noroeste, Sorocabana e Paulista, sempre apenas dormitando nos bancos duros da proletária segunda classe.
“Périplo” vem do grego e significa “viagem em redor”, e depois vimos que viajávamos em redor dos próprios umbigos, ansiando sofrer como os proletários que, como heróis, iríamos libertar com nossa sonhada revolução. Depois de enjoar de sofrer, alquebrados acabamos em Marília, onde eu já tinha morado, para almoçar na casa do amigo Álvaro César Mesquista Serva, cuja avó nos falou “comam bastante que estão com cara de cachorro de rua”. E ficamos com a certeza de que, fosse qual fosse o destino do Brasil, deveria ter trens mais confortáveis.
Mas de lá para cá nossos trens só desandaram, empobrecendo ou acabando, tanto que se tornaram raros os trens de passageiros. Então dá desgosto ver na net os trens na Alemanha repletos e minutamente pontuais ou, no Japão, rápidos que só vendo (e, se piscar, já passou).
Enquanto aqui vemos tanta gente morrendo nas rodovias porque lotadas de caminhões, dá vontade de gritar cadê os trens. Por isso tenho um sonho, como disse Luther King: ver uma rede ferroviária nacional, desafogando as rodovias, a serviço da produção agrícola e industrial e, assim, não só fortalecendo as empresas e as exportações mas também barateando comida e produtos para o povo, além de servir ao turismo. É uma utopia sobre trilhos, uma tremtopia.


