Sou do tempo em que a gente parava

para ver na banca as manchetes

Cheguei ao tempo em que passamos

olhando a própria mão em frente

alguns falando alto sozinhos

como os loucos de antigamente

No tempo de meu pai porém

passantes se cumprimentavam

meu avô tirava o chapéu

pra conhecidos do comércio

conhecidos de varanda

conhecidos de vista

e eu não conheço mais ninguém

O aeroporto tinha pista de terra

os táxis correntes nas rodas

lambretas eram românticas

chinelo se usava em casa

fumar era elegante

No Ouro Verde passavam filmes

na avenida passavam carros

antes de ser calçadão

no Carnaval o corso

Sete de Setembro desfile

Semana Santa procissão

A gente batia bola

onde é esse edifício

e ali onde é calçadão

corremos de rolemã

lá onde é aquele shopping

caçamos preá e rã

Só o centro tinha prédios (um

até com heliporto

pra helicóptero nenhum)

a cidade tinha vilas

os cinemas tinham filas

e os restaurantes risotos

Só pirata usava brincos

era mesmo outra era

era raro tatuagem

chegava-se de viagem

com cabelos pura poeira

Andando no velho centro

em tudo que envelheceu

vejo bem que envelheci

(espero que não por dentro)

e, quem diria, eu

tomei muito trem ali

onde hoje é museu

Mas de repente passa criança

chispando em patinete

igualzinha eu moleque

e entre tantas ruínas

em Londres ou em Londrina

eterna é a infância

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