Tempos e tempos
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de junho de 2019
Domingos Pellegrini 
Sou do tempo em que a gente parava
para ver na banca as manchetes
Cheguei ao tempo em que passamos
olhando a própria mão em frente
alguns falando alto sozinhos
como os loucos de antigamente
No tempo de meu pai porém
passantes se cumprimentavam
meu avô tirava o chapéu
pra conhecidos do comércio
conhecidos de varanda
conhecidos de vista
e eu não conheço mais ninguém
O aeroporto tinha pista de terra
os táxis correntes nas rodas
lambretas eram românticas
chinelo se usava em casa
fumar era elegante
No Ouro Verde passavam filmes
na avenida passavam carros
antes de ser calçadão
no Carnaval o corso
Sete de Setembro desfile
Semana Santa procissão
A gente batia bola
onde é esse edifício
e ali onde é calçadão
corremos de rolemã
lá onde é aquele shopping
caçamos preá e rã
Só o centro tinha prédios (um
até com heliporto
pra helicóptero nenhum)
a cidade tinha vilas
os cinemas tinham filas
e os restaurantes risotos
Só pirata usava brincos
era mesmo outra era
era raro tatuagem
chegava-se de viagem
com cabelos pura poeira
Andando no velho centro
em tudo que envelheceu
vejo bem que envelheci
(espero que não por dentro)
e, quem diria, eu
tomei muito trem ali
onde hoje é museu
Mas de repente passa criança
chispando em patinete
e entre tantas ruínas
em Londres ou em Londrina
eterna é a infância


