AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Tatuagens no coração


Tenho tatuagens no coração, PÉ-VERMELHO é a primeira. A gente nasce onde nasce porque nosso pai conheceu nossa mãe, vindos de incontáveis gerações e caminhos, de modo que todo nascimento é resultado de uma rede de milênios incidindo num certo dia num ponto do planeta. É a primeira coisa que não podemos mudar na vida. E eu nasci na Rua Maranhão na Londrina Capital do Café.

Tinha um camelô em cada esquina, um mascate sempre passando, famílias chegantes com mudança que cabia em malas.


Vi um saqueiro entrar num bar de manhãzinha, só de calções e lenço na cabeça, todo coberto de poeira de estopa, dizendo que tinha trabalhado todo o fim de semana e agora ia pagar bebida pra todo mundo, - e os saqueiros eram apenas os primeiros a botar as mãos na riqueza do café...



Nas estradas vi longos encalhes, gente amargando chuva e fome, sede e mosquitos, mas confiantes no sol, que iria voltar, e na terra que tanto dava os atoleiros como também grandes colheitas.


Nunca ouvi alguém falar mal da terra-vermelha. Londrina nasceu porto para o mundo, acolhendo gente de trinta nações, e se tornou ponte para o mundo, gerando migrações de pés-vermelhos, que porém saem daqui falando bem do berço. E eu tive a graça de nascer entre essas duas gerações.


Se iniciativa fosse medida no DNA, os pés-vermelhos seriam campeões. Somos descendentes de gente que chegou ao país e depois mudou para a cidade sempre procurando vida nova, inclusive os negros que para a terra-vermelha vieram depois da escravidão.

As famílias passaram da agricultura para os trabalhos urbanos, também como empresários ou autônomos. Na Europa levou séculos, aqui povoados viraram cidades em poucos anos. Então pé-vermelho é sinônimo de transformação, primeira tatuagem no meu coração.



INFÂNCIA é a segunda tatuagem. Fui menino ainda em tempo de quintais, piloto de mangueira, marujo de abacateiro, macaco de goiabeira. Segui trilha de formiga, enterrei o gatinho debaixo do caquizeiro, trepei na astronave do telhado, reencontrei tesouros em esconderijos esquecidos.


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. | Arquivo pessoal
 




Na rua, com meninas brinquei de amarelinha e passa-anel, pulei corda e joguei bola-queimada. Com meninos, joguei bolinha de gude, girei pião, embiroquei bilboquê e soltei papagaio, corri com rolimã.

E brinquei de pique-salva! O coração bombava correndo e fintando para salvar os companheiros presos em fila a partir do poste, esperando o toque salvador. O salvador entretanto acabava preso, assim se sentindo ao mesmo tempo herói e mártir, adolescente duplamente adulto.


Mas em casa nas noites de chuva, ouvia histórias de assombração de Tia Ana, comendo pipoca e depois dormindo com cabeça coberta de medo.

Numa Páscoa, uma prima contou que eram nossos pais e não o Coelho quem escondia os ovos pela casa para a gente achar, e eram também quem no Natal botava os presentes na árvore, Papai Noel também não existia.

Eu nem quis o café da manhã. Fui para o quintal e sentei sobre o ovo chocando aquela desilusão, ou aquela evolução, porque logo esqueci daquilo e fui reencontrar a infância.

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