AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Tatuagem no coração: AS PRIMEIRAS MORTES


Getúlio Vargas
Getúlio Vargas | Reprodução
 


A morte sempre deixa tatuagem forte no coração, aquela lembrança que fica de alguém que se foi. E meu primeiro morto foi Getúlio Vargas. Nascido em julho de 1949, eu tinha portanto quatro anos e meio em 24 de agosto de 1954 quando Getúlio se matou. Estava numa rede com minha irmã Anavaly, quando alguém passou gritando: Getúlio morreu! E de repente todo mundo chorava e eu não entendia nada. É uma de minhas primeiras lembranças, decerto tatuada fundo porque mistura de novidade e susto, eu nem sabia que se morria e, de repente, todo mundo chorava por alguém que tinha se matado e, assim, eu também tinha de entender que, além de morrer, gente pode se matar.


Um tio também suicidou-se, forte e bonito, começando a matar de desgosto Vó Tiana. Na família pré-cidadania não se falava dos suicidas, não se tentava entender, e os suicidas ficavam como estrelas ignoradas e apagadas embora desarranjando toda a constelação familiar. Hoje entendo assim; na época, menininho, apenas ouvi sussurros entre suspiros e até recentemente me conformei em ter um tio que devia ignorar. Que esta crônica seja meu reavivamento familiar contigo, tio Zizo.




Não sei se antes ou depois morreu o Faísca, o cachorro do nonno José, que saía para a rua pulando a mureta e ia com ele até um banco da praça ali diante da Pernambucanas. Ele pitava e proseava com passantes e outros ocupantes temporários daquele banco público que parecia seu, ali sentado de pernas cruzadas, Faísca deitado debaixo do banco atrás de seus calcanhares.


Se sentava ali um desconhecido, Faísca ficava alerta. Se conhecido, cochilava. Se passante parava e proseava, ficava só meio alerta. E, se chegava alguém com má intenção, contava o nonno, Faísca rosnava baixinho como a lhe alertar. Quando Faísca foi atropelado por cruzar a rua para abordar cadela no cio, nonno ficou sem comer, tão amargurado que nem pitou na hora do poente, quando sentava na varanda e ficava olhando a rua na tardinha, cumprimentando quem passava mesmo que não conhecesse ou, como dizia, passando a conhecer.


Não sei se depois ou antes, os quatro primos matamos um gatinho que tinha olhos de cores diferentes, a velha memória não consegue lembrar quais. Também não lembro como apareceu aquele gatinho, mas jamais esquecerei que ele dormiu na despensa, com alguma comidinha que a nonna deu, e de manhãzinha, vendo que estava muito magrelinho, resolvemos lhe dar um fortificante.


Fizemos um fogo sobre tijolos e, numa lata de goiabada, fervemos comigo-ninguém-pode, espada-de-são-jorge e todas as demais plantas suculentas do jardim e do quintal. Esperamos a fervura esfriar e demos ao gatinho, colheradas e colheradas na boca aberta à força. Quando ele amanheceu morto, descobri como até a infância pode ser cruel, e, depois do morrer e do se matar, descobri que também se pode matar alguém. E, então, a primeira vez que chorei por alguém, foi por um gatinho de olhos sabe Deus que cor.

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