AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Tatuagem no coração - As brincadeiras dançantes


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. | Reprodução
 


O esquema era simples, como tudo que funciona bem: para custear festa de formatura, uma turma convidava para brincadeira dançante, cobrando ingressos e vendendo comes e bebes, num salão qualquer ou até em garagem de casa. No toca-discos, a Jovem Guarda, o movimento musical que no meu coração está tatuado juntinho com a Bossa Nova. A gente dançava cantando, eu pelo menos até alguém me pedir para parar de cantar em seu ouvido, aí perguntei porque, não gostava da música?

- Não - respondeu ela - É que você é muito desafinado...


Para as brincadeiras dançantes caseiras, elas levavam salgados e doces, eles levavam as bebidas. Não existia cerveja em lata, a bebida mais usual era cuba-livre, mistura de rum com coca-cola ótima para dar ressaca. Os rapazes tiravam as moças para dançar e ali surgiam namoros, que às vezes acabavam até no mesmo dia e assim eram chamados “amor de brincadeira”.



Como ainda não existia feminismo, apenas mulheres, moça que tirasse rapaz para dançar era vista com inveja pelas outras e com temor por eles – pois de que mais poderia ser capaz?


Tímidos não se atreviam a tirar alguém, então se embebedavam e acabavam dançando sozinhos para gozação de todos. Já os muito atrevidos, por isso mesmo também acabavam sozinhos. E os outros iam aprendendo a dosar ousadia e discrição, de modo que as brincadeiras dançantes acabavam sendo aulas práticas de relacionamento.


As brincadeiras caseiras acabavam quando os pais da anfitriã batiam palmas e diziam que já tinha passado da meia-noite. Então alguns iam sentar no meio-fio diante da casa, para incomodar os vizinhos até alta madrugada com conversas e risos.


As brincadeiras “comerciais”, como se dizia, podiam ser tocadas por conjunto musical, com enormes caixas de som empilhadas atrás dos músicos, geralmente na formação básica baixo-guitarras-bateria dos Beatles. Às vezes, para não levar choque dos aparelhos e microfones, alguns tocavam pisando numa mesma tábua no piso do palco. Fumar ainda era bonito e alguns tocavam fumando, e charme maior era enfiar o cigarro aceso nas cordas da guitarra para pitadas rápidas.


Ao fim de cada música, alguns gritavam pedindo tal ou qual música, e os músicos muitas vezes passavam a afinar as guitarras antes de atender. Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, do Roberto, fazia um sucesso infernal e um dia pedimos bis tantas vezes que o cantor ajoelhou pedindo clemência:

- Já tocamos doze vezes essa música!

Gritamos, vaiamos, uivamos, então eles tocaram mais uma vez. Depois o cantor disse que, só de pirraça, iam tocar mais uma vez. Então gritamos que não, não, que isso, não sabiam outra música?


Esse era o espírito das brincadeiras dançantes, juntar dança e diversão, aventura e iniciação, música e paixão, com graça e respeito. Outro dia encontrei velho amigo, perguntei como vai a mulher que conheceu numa brincadeira dançante, e ele respondeu:

- Continuamos do mesmo jeito, brincando de amar.



Bate, coração!

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