Os amigos se encontram para a cerveja semanalmente e um olha tão triste o copo que o outro estranha, que é que há?

- Saudade. Saudade dos filmes de mocinho. É, quando as histórias tinham heróis do bem, como a gente dizia. Agora a maioria dos filmes é com heróis parecidos com os bandidos, como anti-heróis, gente do mal.

- Me arrepiou, cara, lembrei de Sete Homens e Um Destino.

- A Ponte do Rio Kwai. Lawrence da Arábia.

- Doutor Jivago. Filmes inesquecíveis, com heróis e com pouco sangue, e ninguém recarregava os revólveres mesmo no maior tiroteio.

- Só Butch Cassidy e Sundance Kid.

- Mas só na cena final antes de morrerem como não se vê, só se ouve os disparos da tropa em redor... É aí que deve ter começado o culto aos heróis marginais.

- Mas o Butch e o Sundance pagam pelos seus erros com a própria vida.

- Eram bandidos bons, né, assaltando só bancos e sempre muito simpáticos e humanos.

- Como é muito humano o tiroteio final de The Wild Bunch ou Meu Ódio Será Tua Herança, ô tradução cretina! Mas de oitenta mortos em poucos minutos, sangue esguichando em câmera lenta... Os quatro heróis foram assaltantes mas se sacrificaram por compaixão humana. Até os heróis bandidos daquele tempo eram muito gente.

- Me arrepiei de novo. Mas sei lá, pode ser que a gente não veja graça nos heróis de hoje simplesmente porque envelhecemos...

- Mas como ver graça em super-heróis com poderes absurdos? Parecem super enganação! E até fico com saudade de Rocky Um Lutador, sempre se preparando tanto e apanhando tanto até vencer...

Ficam olhando a espuma seca dos copos.

- Mas temos a graça de ainda ver filmes. Lembra do Olavo? Foi-se quinta-feira, esqueci de te contar.

- O Olavo? Ele fazia dois mil metros na piscina todo dia e...

- Foi nadar longe daqui.

Enchem os copos, a espuma festeja, brindam.

- Ao velho cinema!

- E aos novos tempos! Afinal, cara, hoje a gente pode ver filmes do mundo todo sem sair de casa, comendo pipoca sem incomodar ninguém como nos cinemas.

- Mas me dá saudade dos cinemas com footing antes de apagar a luz e, quando aparecia o leão da Metro, a gente gritava “ruge, leão” e ele rugia...

- Hoje é preciso ver antes do filme um desfile de logomarcas, chego a pensar que o filme está começando e é só mais uma logomarca toda animada. E depois é preciso torcer pra não ser mais um filme que começa impactante e aí vai pra “um ano antes”...

- Vi um filme acho que franco-austro-húngaro em que uma ex-policial atropela e mata um médico que matou seu filho, todos maus...

- Pois é... Ô saudade!

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