Os germanos foram o único povo europeu que não se deixou conquistar pelos romanos, ao contrário: invadiram o Império Romano e aceleraram sua dissolução. Depois os alemães, descendentes dos germanos, continuaram a ser exemplos de eficiência, inclusive na regeneração dos próprios erros, como o nazismo, após cuja derrota a Alemanha renasceu como país protótipo de democracia e civilização.

E é na Alemanha nazista que começa o romance Uma Maçã Para Quatro, da londrinense Cornélia Wendel, médica formada pela UEL com especialização em oftalmologia na Alemanha. Ela nunca escreveu um livro antes, mas seu romance é exemplo de história densa de fatos contados com linguagem clara e envolvente, eis suas primeiras linhas como exemplo:

“- Papi, por que o gato está miando tão alto?

A pergunta, feita em um tom um tanto irritado, vinha de Sabine, a filha mais velha de Willy, então com quase quatro anos.

- Acho que você acabou de ganhar um irmãozinho que mia como um gato – respondeu Willy, ainda sem saber que sua esposa acabava de dar à luz mais uma menina, contrariando todas as suas expectativas quanto ao tão sonhado herdeiro homem.”

O romance narra a história de uma família que, antes de chegar a Rolândia, no Norte do Paraná, teve de fugir da Alemanha nazista em 1939.

O casal pioneiro fugiu separados, a avó com suas duas filhas, pois o avô só conseguiu se evadir, criativamente digamos, primeiro para a Inglaterra e depois para a Austrália, porque era judeu e, apesar de casado com alemã, não pôde embarcar, só vindo a reencontrar a família década depois.

Parte da família sofrerá percalços e surpresas más no exílio, enquanto outros ainda na Alemanha, depois de muito sofrer, chegarão ao pior dos destinos em Auschiwitz, o mais lembrado e mortífero dos campos de concentração.

No Brasil, a personagem central passa por dois casamentos, como marcos de superação e renovação típicas das mulheres do século 21, e, assim, é também um romance tão pleno de História quanto de histórias pessoais.

Essas histórias se entrelaçam em dois eixos, um a partir de 1936 na Alemanha e outro a partir de 1965 no Brasil, numa estrutura complexa que entretanto se lê com desenvoltura e prazer, até porque entremeada de frases criativas e significantes como: “O tempo cura e afaga as cicatrizes, e a dor acabou por fortalecer os quatro corações”.

No velho continente, foi preciso refazer a cultura e a civilização estraçalhadas pela guerra, enquanto, no novo continente, foi preciso se adaptar e sobreviver numa terra estranha com clima e costumes diferentes.

Transparece vivamente que, em tempos de lutas ideológicas, a luta maior acontece sempre nas famílias a cultivar a convivência e a decência apesar das desgraças causadas pelas ideologias.

Num tempo de tantas ilusões ideológicas e até lotéricas como vivemos agora, a história narrada por Cornélia traz alento para manter os valores atemporais e universais da dignidade pessoal e da decência coletiva, trabalhando duro e preservando a civilidade, sem deixar de dar tempo e lugar para o amor, a alegria e a ternura.

Após muitas dores e sofrimento nos dois continentes, sobrevive e se ressalta a resiliência a perseguir uma nova vida, conforme a epígrafe final entre as que abrem cada capítulo: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde ir” (Sêneca).

* (O livro está à venda na Amazon, livrarias e sebos).

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