Riqueza, povo e democracia
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sábado, 08 de junho de 2019
Domingos Pellegrini 
Lembro de meu nonno José chegando com um ventilador, primeiro eletrodoméstico para a casa depois do rádio - que era mais que isso, era fonte de informação e diversão, além de altar nos programas religiosos. Depois a geladeira aposentaria o guarda-comida e a televisão iria escanteando o rádio.
“Muita gente vivendo atualmente cresceu sem geladeira, carro ou televisor. Hoje as pessoas tem geladeira, dois carros e um home theater gigante. O crescimento impressionante da economia das democracias desenvolvidas, combinado a um período inédito de relativa igualdade, transformou a vida cotidiana” – escreve Yascha Mounk em seu livro "O Povo Contra a Democracia", tentando decifrar porque em tantos países líderes chamados por ele “populistas” tem votação crescente ou chegaram ao poder como Trump e Bolsonaro.
Parte da explicação estaria na desaceleração do crescimento econômico, por exemplo nos Estados Unidos: de 1935 a 1960, o padrão de vida das famílias dobrou, voltando a dobrar de 1960 a 1985, a partir de quando estagnou e “a família americana média não está mais rica do que há 30 anos”. E os pais vêem seus filhos com panorama trabalhista pior do que no seu tempo, o que explica o aumento de votação jovem nos candidatos que pregam rejeição ao modelo social-democrata.
O próprio Mounk, entretanto, relata que “durante a maior parte da História, o crescimento econômico foi quase inexistente. Entre a fundação de Atenas e a invenção da máquina a vapor, o crescimento anual médio permaneceu num modesto 0,1%. E grande parte dele se deveu ao aumento da população, não dos padrões de vida”. O crescimento das economias mundiais só ocorreu a partir do século 19. No Brasil, essa riqueza só passaria a ser mais distribuída a partir dos anos 1950, depois do grande êxodo rural para as cidades.

As mídias sociais foram outro fator determinante para o povo votar “contra a democracia”, na visão de Mounk e outros que só aceitam a democracia desde que seja para consagrar o chamado progressismo com igualdade em vez do conservadorismo com prosperidade. (A esquerda sempre pregando justiça social, mesmo que através de autoritarismo e pobreza, e a direita sempre pregando que a livre prosperidade é a única forma de distribuir riqueza.)
Enquanto isso, noticia-se a descoberta de uma sociedade que parece ter sido a mais justa do mundo, ali onde hoje é o México. Depois de décadas escavando, arqueólogos descobriram a cidade-estado mexicana Tlaxcallan, fundada em 1250 d.C. Ao contrário das sociedades maia e asteca, que eram centralizadas, nas ruínas de Tlaxcallan os arqueólogos não encontraram vestígios de palácios ou grandes templos e mesmo mansões, assim indicando uma sociedade sem poder estatal ou religioso e até sem classe rica.
Essa igualdade econômica transparece no fato de que todas as casas, semelhantes e simples, tinham cerâmicas ornadas e coloridas, também ao contrário de outras civilizações onde jarros decorados existiam apenas nos palácios. Embora sem os luxos do que hoje chamamos de “poderes públicos”, entretanto Tlaxcallan decerto tinha seus poderes, pois retirava de uma mina, em terras já dos aguerridos astecas, a obsidiana, espécie de rocha vítria que era a alta tecnologia da época, para confecção de facas e pontas de lanças e flechas, além de jóias como até hoje.
Mas Tlaxcallan deixou ruínas tão reveladoras porque simplesmente extinguiu-se, seja por causa externa, como uma conquista asteca, seja por causas internas, como a própria igualdade. Ruína causada por igualdade?! Sim, conjeturam os antropólogos, a igualdade total pode ter exaurido aquela sociedade por desestimular iniciativas e empreendimentos com a acomodação coletiva.
Desconfio de um futuro baseado só no crescimento econômico, pois para crescer até agora destruímos e poluímos demais o planeta. Também não creio num futuro baseado na igualdade, já que somos diversos por natureza. Mas acredito na capacidade humana de encontrar soluções conforme os problemas se apresentam. Que Tlaxcallan repouse em paz e viva o futuro, até porque é incerto e, por isso, humano.


