Que saudade da máquina de costura Singer da mãe, minha mais antiga lembrança. Eu devia ter três ou quatro anos, pequeno o bastante para caber deitado no largo pedal da máquina, pensando que era minha, pois protestei quando ela quis usar a máquina, e riram de mim, fiquei bravo, me tiraram da minha primeira casinha.

Que saudade do primeiro sagu, na merenda do primeiro dia no grupo escolar. Não conhecia sagu e achei aquilo uma maravilha, um doce vermelho de bolinhas que dançavam na boca antes de mastigadas, minha primeira lembrança culinária.

Que saudade das batatas-doces do forno a lenha de Vó Tiana, que ela colocava ali depois do almoço, com o forno quente, para passarem a tarde no calor brando das brasas, de modo que, tardezinha, ficavam crostadas por fora e macias por dentro. Aí ela cortava cada batata pelo meio, mexia com colher, regava com melado e ficava me vendo comer. Um dia perguntei porque ela ficava olhando assim, e ela falou ah, é porque gosto de ver meu neto comer com gosto, primeira frase inesquecível.

Saudade também de sangue, é, o sangue que me saiu da testa quando mergulhei na piscina com os braços colados ao corpo, e fui bater a testa lá no fundo, aí levantei tonto e alguém apontou: estava sangrando. Então meus primos me enfiaram nas roupas, deram uma meia limpa pra segurar no machucado e, um na frente e outro atrás como guia e guardião, me levaram até farmácia onde o farmacêutico deu pontos e falou que eu ia ficar bom porque era quase homem, e senti o primeiro orgulho de mim.

Que saudade dos peões e camelôs da Pensão Alto Paraná de minha mãe, depois da janta acocorados em redor de fogo no quintal. Ali, um meio-tambor sobre tijolos passava o dia fervendo sabão, até que noitinha tiravam o tambor dali e botavam mais lenha no fogo, aí contavam histórias de lutas e assombrações, caçadas e trabalhos, assim já os primeiros a me revelar que na vida eu seria contador de histórias.

Que saudade do primeiro carrinho de rolemã, feito por Orlando, com que eu descia pela calçada pois a rua era de paralelepípedos, e, chegando lá na esquina virava em curva tão rápida que às vezes me jogava na rua, mas eu levantava desprezando os arranhões nos cotovelos e joelhos, e voltava a subir a calçada para nova corrida, aula de vida.

Que saudade da primeira namorada e nosso primeiro beijo, quando falei ei, você enfiou a língua na minha boca, e ela falou ué, beijo é assim, seo bobo, após o que acabei com nosso namoro, pois onde se viu chamar de bobo quem como eu já tinha visto tantos beijos em tantos filmes?

Que saudade do Chico Passarinho, camelô hóspede da Pensão, que um dia ficou sem seus trecos pra vender e falou “pela primeira vez vou vender só conversa, rapaz, vem me ajudar” – e, naquela Capital do Café cheia de gente nas ruas, foi pra esquina onde bateu palmas e falou alto: 'olhaqui, gente, quem quer pagar pra me ouvir falar?' – e passou a contar histórias e piadas, entre umas e outras me pedindo pra rodar o chapéu que foi se enchendo de notas e moedas; até que falou obrigado, meus amigos, e se despediu cantando um baião, depois pegou as notas e falou que eu podia ficar com as moedas, meu primeiro dinheirão, que saudade!

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