Quando a saudade chega com música para quase dar enfarte
Arrancando matinho, e descobrindo que não sei de cor aquelas músicas, fui sentindo o velho coração como que batendo mais
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2025
Arrancando matinho, e descobrindo que não sei de cor aquelas músicas, fui sentindo o velho coração como que batendo mais
Domingos Pellegrini 

A foto é de matinho que fui arrancar em jardim e quase tive enfarte. Porque levei o celular com caixinha de som e, tendo visto amigo antigo na feira-livre, resolvi ouvir os Beatles, lembrando que há meio século esperávamos ansiosamente cada disco deles, para ouvir na garagem sem ser perturbados, e o mundo girava a partir do disco na vitrola.
E, arrancando matinho e descobrindo que ainda sei de cor muitas daquelas músicas, fui sentindo o velho coração como que batendo mais. Lembrei de um professor a dizer que “o coração é só um feixe de músculos, nada sente, mas, se o cérebro sente emoção forte, desde o pavor até a paixão, aumenta a circulação sanguínea, o coração acelera, por isso na Antiguidade pensavam que o coração é o órgão dos sentimentos e emoções, mas não é”.
Pois sim! Botei Stones pra tocar e lembrei das brincadeiras dançantes, os bailes, os rapazes tirando as garotas pra dançar desde rock até boleros de Agustin Lara, com o rosto colado e... O coração bateu forte!
Daí botei twist e apareceu Cristina, a garota com que formamos par para disputar concurso de twist, guardo enferrujada e preciosa a tacinha que ganhamos. E o coração batendo fundo!
Lembrei de minha mãe comprando nossa primeira vitrola e dizendo a minha irmã e eu: é de vocês, cuidem bem – e já no dia seguinte nossa sala encheu de garotada dançando sem sapatos (para não estragar o tapete), e, com a primeira namorada nos braços, o coração fazia o que até então só fazia na piscina, bombava.
Lembrei nossa mãe de olhos molhados a ouvir Ângela Maria e Dalva de Oliveira, botei pra ouvir e sujei a cara, por limpar lágrimas com os dedos sujos de terra. Lembrei meu pai ouvindo Nelson Gonçalves, aquele gago com vozeirão de veludo como diziam, limpei os olhos com a manga do macacão.
O gago fez lembrar o anão Nelson Ned, e ouvi o baixinho a dizer que nem se sabe quantos são os anões do Brasil porque o censo não pergunta isso, e o coração bombou mais ouvindo aquela grande voz. Então ouvi Cauby, lembrando quando ele veio cantar no Grêmio em Londrina, e nossa moçada ficou na entrada esperando pra zoar dele, que chegou a pé vindo do Bourbon Hotel, e falou dando uma piscadela: - E aí, moçada, pronto pra ouvir Cauby? – e entramos atrás dele, fãs imediatos.
Daí botei pra tocar o maravilhoso álbum de Luiz Gonzaga com Fagner, lembrando quando, na coxia do Moringão, perguntei ao Gonzagão por que ainda fazia shows com a sanfona, tão pesada, e ele disse ah, menino, é porque o povo não quer só ouvir as músicas, quer ver o sanfoneiro Rei do Baião... E pouco tempo depois ele caiu de um palco com a sanfona, machucando-se bastante... E o coração bum, bum, bum!
Depois botei pra cantar aquele caminhoneiro que gravou um disquinho numa gravadora artesanal, com uma faixa só, pra presentear a mãe, então foi ouvido e se tornou Elvis Presley. E o coração dançou!
Foi um baile da saudade, sozinho no quintal entre cantos de maritacas e sabiás, e, quando o sol beijou o morro, desliguei grato o som e avisei ao coração: por hoje, chega, senão você arrisca ter um enfarte, meu irmão...


