Em shows, alguém sempre grita “Toca Raul!”, e alguns músicos se irritam, outros sempre tem músicas de Raul Seixas na ponta da língua, e que podem se tornar o pico do show. Músico muito singular desde a voz à visão de mundo, em seus rocks e até boleros Raul misturou a onda hippie com romântica breguice e melodias travessas, e há quem o veja como nossa mistura de Bob Dylan e Paul Simon em versão moleque.

Sua música mais sucessosa, Maluco Beleza, começa dirigindo-se a alguém para se diferenciar: “Enquanto você se esforça pra ser / um sujeito normal / e fazer tudo igual / eu do meu lado (vou) aprendendo a ser louco / um maluco total / na loucura real”. Essa letra é de seu muitas vezes parceiro Cláudio Humberto, que talvez quis dizer que a realidade é também muito louca.

Mas o louco tem receita própria de vida, “controlando minha maluquez / misturada com minha lucidez”, e por isso “vou ficar, ficar com certeza / maluco beleza”.

Essa expressão “maluco beleza” sugere que a loucura pode ser bela e a beleza louca, fazendo lembrar que as próprias artes são desnecessidades vitais, poderíamos viver sem artes mas decerto seria uma vida menos humana.

A seguir o herói pop, em baixo tom, revela ou proclama: “E esse caminho / que eu mesmo escolhi / é tão fácil seguir”... mas o verso seguinte leva a reflexão, pois tal caminho não tem meta “por não ter onde ir”. Ou seja: não há destino ou prêmio, apenas caminhamos misturando maluquez e lucidez (e acrescentemos:) desde a vida doméstica à política internacional...

Sua música Metamorfose Ambulante torna-se atualíssima na polarização ou bobalização política: “Eu prefiro ser / essa metamorfose ambulante / do que ter aquela velha opinião / formada sobre tudo // Eu quero dizer / o oposto do que disse antes / eu prefiro ser / essa metamorfose ambulante”.

Mais adiante, ele se explica e enfatiza: “Eu sou um ator / e vou desdizer / aquilo tudo que eu disse antes / eu prefiro ser / essa metamorfose ambulante / do que ter aquela velha velha velha velha / opinião formada sobre tudo”.

Em Cowboy Fora da Lei, também com Cláudio Humberto, Raul se isenta de heroísmo e martirismo: “Papai, não quero provar nada / eu já servi a pátria amada / e todo mundo cobra minha luz // Oh, coitado, foi tão cedo / Deus me livre, eu tenho medo / morrer dependurado numa cruz”... Pois “Eu não sou besta pra tirar onda de herói / sou vacinado, eu sou cowboy / cowboy fora da lei // Durango Kid só existe no gibi / e quem quiser que fique aqui / entrar pra História é com vocês”...

Esse personalismo inquieto de Raul toca a alma dos jovens porque se mistura com esperança, como em Tente Outra Vez (em parceria com Marcelo Ramos Motta e Paulo Coelho): “Não diga que a canção está perdida / tenha fé em Deus / tenha fé na vida / tente outra vez”.

E é por essas e outras sacadas e contradições, sem querer fazer a cabeça de ninguém mas sempre cutucando pra se pensar, que em shows tanto se gritou e parece que sempre haverá quem tenha vontade de gritar: - Toca Raul!

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