Imagem ilustrativa da imagem Picareteando e mandiocando
| Foto: Joa Souza/Shutterstock.com

Picaretear já foi viver de negócios aqui e ali, caçando oportunidades em ocasiões; conforme o dicionário, coisa de “negocista duvidoso, sujeito cavador, aproveitador, principalmente na imprensa”.

Entretanto picaretear pode ser também bater picareta mesmo, principalmente para plantar mandioca. Dalva e eu dividimos as tarefas mandioqueiras: eu planto, nós regamos, eu colho e lavo, ela descasca e cozinha. Primeiro comemos mandioca cozida, ainda quente e só com azeite e sal, uma delícia de sofisticada simplicidade. Guardamos a maior parte crua no congelador, para fazer sopa ou creme, e eu até contaria que comemos frita também, se fritura não tivesse se tornado uma maldição inconfessável... (Mas, cá entre nós, será que existe coisa melhor que mandioca fritinha crocante por fora e por dentro macia?)

Voltemos à picareta. Melhor é plantar em dia depois de chuva, quando a terra já não está encharcada de grudar na picareta, nem está endurecida de seca. No solo úmido a picareta entra fácil e fundo e, ao ser puxada, a terra se esboroa pronta para o plantio. Já a terra seca, além de trabalhosa, como diria o caboclo desova muito torrão.

Picareteio cova de metro de largura por dois palmos de fundura, deito as manivas e cubro com dois dedos de terra, plantio simples como só. Já nem regamos mais, pois o plantio é em terreno vizinho ainda baldio, e a chuva é mãe que sempre acode. Daí esqueço mas chuva faz lembrar, vou ver as covas, lá estão as ramas saindo da terra, as primeiras folhas no formato de pequenas mãos parecem acenar para o céu.

Nove meses depois começa a colheita, ou mandiocamente falando, o arranquio. A prática logo ensina que arrancar mandioca exige tanto força quanto jeito, para não quebrar e deixar partes enterradas. E então, quando todo o raizame sai do útero da terra, o arrancador se sente parteiro. Depois os galhos serão plantados e virarão novamente raízes, cada mandioca pode gerar um pequeno mandiocal, exemplo de produtividade.

Além de comida para o corpo, mandioca pode ser também refúgio para o espírito.

Bolsonaro mais uma vez falou o que não devia? Planto mandioca.

Trump de novo ameaça começar mais uma guerra? Planto mandioca.

Putin beijou Maduro na boca? Planto mandioca.

O Supremo solta mais um bandido em nome da Justiça? Planto mandioca.

O Congresso aprova leis para se defender do combate à corrupção? Planto mandioca.

Governos gastam propaganda para proclamar que cortam despesas? Planto mandioca.

A direita acusa a esquerda de fazer o que a direita sempre fez e vice-versa? Planto Mandioca.

Pra refrescar a cabeça, será que existe sorvete de mandioca? Dr. Google diz que sim, como também bolos, pudins e biscoitos, além de entrar também em tecidos, medicamentos, álcool. Sem esquecer a farinha de mandioca, que sacramenta o casamento do arroz com o feijão. A mandioca também casou a culinária índia com a européia nos pratos mandiocados, da vaca-atolada ao curimã, do tucupi ao tacacá, sem esquecer do pão-de-queijo e dos sequilhos.

Até no escritório e no banheiro tem mandioca, nos papéis e nos cosméticos, é mandioca por todo lado! Como é muito usada em molhos, deve estar até na ração dos astronautas na estação orbital.

E o melhor da mandioca é, depois de picaretear regando o plantio com suor, sentir o coração bater forte, dizendo você está vivo, vivo. Como cada mandioca vem doutra mandioca, você continua seus pais, seus avós, a linhagem de tanta gente antes para existir você. E você ainda tem força de empunhar picareta, com esse céu azul por cima, por baixo essa terra vermelha e aquela nuvem escura anunciando chuva para teu plantio.

Então uma velha palavra ecoa por dentro e sai pela boca: obrigado, vida, obrigado, terra, obrigado, mandioca.

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