Na rodoviária surpreende a sala vip da Viação Garcia, principalmente pelo bom gosto e volume adequado do som ambiente. Sem sertanejo berrado nem sambão rasgado, sem rock adoidado, apenas MPB em interpretações jazzísticas, deixando a pensar: se for sempre assim, é milagre sonoro cercado de barulheira por todos os lados.

Depois da educação ecológica e da financeira, da inclusiva, da educação à distância, da tecnológica e da corporativa, continua gritante a falta de educação sonora.

Quando morei no centro, protestei tanto contra a barulheira no Calçadão que ganhei o apelido de Ouvidor do Barulho, e fui morar em chácara por recusar a me “acostumar” com a barulheira em que vivemos.

O tipo mais abusado de barulhador é o carro ou caminhoneta com som tão potente que a lataria vibra. Som tão alto provoca propensão a hipertensão, estresse e cardiopatias, com mais incidência em quem está mais perto da fonte de som, ou seja, o próprio sujeito ao volante e seus acompanhantes, embora essa justiça biológica não livre todos os outros em redor de sofrer junto...

Mas o castigo auditivo, inclusive com perda crescente e irreversível de audição, só foi percebido quando já era uma epidemia entre os DJs, que por isso passaram a usar protetores auriculares – mesmo já semi-surdos. Assim, continuam botando som alto porque ouvem pouco, enquanto ouvem pouco devido a som alto.

Em muitos eventos, gostemos ou não, temos de conversar em voz alta ou silenciar para poupar a voz e a paciência, devido ao “sonzão rolando”. Realmente rolando pois, antes até de começar o evento, colocam no ar cavernosos ruídos como de troncos rolando ou rochas quebrando, cuja finalidade parece ser apenas criar um ambiente avesso ao bom senso e ao bom gosto. Após essa preparação, assim como a artilharia precede a invasão dos tanques, vêm músicas pop ou hard ou tecno ou qualquer coisa ininteligível em inglês, mesmo que o público seja na maioria de meia idade ou idoso. O barulhento profissional é portador de cegueira social.

Há também a turma lá-de-trás, que nos shows e eventos fica conversando alto e até gargalhando, em agressivo desprezo a todos os outros. É uma mistura de barulheira com grosseria, tendo em comum, com as outras formas de barulhação, a origem egóica: “Eu falo alto, Eu faço barulho, Eu posso porque quero e os incomodados que se mudem”.

Assim, profundamente o cultuador de som alto é um autocrata, o oposto do democrata, aquele que tanto pensa em si mesmo que sequer desconfia da existência dos outros. O autocrata sonoro vive cercado por uma redoma de rejeição social, que porém nem percebe no seu anestesiamento barulátrico .

A solução para essa epidemia sonora não é fácil, pois pressupõe pensar nos outros, sentir pelos outros, trocar o big Ego grosseiro por cultura civil.

Não é à toa que, em viagens pelo mundo, turistas brasileiros barulhentos são repreendidos em restaurantes, aviões, praças e ruas. Num avião, quando uma turma começou a esgoelar Trem das Onze mais uma vez, um senhorzinho (que passei a ver como senhorzão), bateu palmas e falou:

- Já passou das onze faz tempo, hora de gente normal dormir!

- Mas – um retrucou - estamos incomodando alguém?

Um coro se levantou - Siiiim!!! – e então silenciaram e foi um bom voo.

Quando ouço mais um carro de som trepidante, uma turma do barulho a conversar alto em evento, um casamento barulhento como se o DJ fosse o celebrante inquestionável da cerimônia, penso que muuuuuito mais gente deveria estar naquele voo. E a educação sonora deveria estar nas escolas.

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