AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Pedalando com Einstein


O neto Caetano instalou na sua bicicleta farolete e GPS, com fita crepe amarrando lanterna e celular no guidão. Mas para mim o que faz falta mesmo é um motorzinho elétrico para ajudar nas subidas. Vejo com inveja os patinetes elétricos chegando aos grandes centros, ajudando gente a romper as barreiras do trânsito com mais desenvoltura que as bicicletas, já que os patins podem trafegar pelas calçadas.


Entretanto, pobres patinetes, em muitas cidades irão deparar com tantos buracos e degraus que se tornarão inviáveis. Lembro de Berlim, onde cadeiras de rodas elétricas deslizam por calçadas lisas, notável pleonasmo. Então lembro também das micro-ciclovias de Londrina, espalhadas pela cidade mas sem ligação uma com a outra, feitas por empresas como contrapartidas exigidas pela prefeitura. Diante do Mercadão Prochet há uma que não chega a duzentos metros, e, assim, vamos formando nossa ciclinútil, uma rede desintegrada de ciclovias não utilizadas.




Mas voltemos aos pedais. Com eles aprendemos uma série de relatividades. As subidas são penosas e demoradas, mas as descidas como são gostosas! Suamos na subida, mas na descida sentimos o suor começar a secar voando na velocidade. Pena que a descida, justamente por ser veloz, dura muito menos que a subida. Einstein diria que o prazer de pedalar é proporcional a nossa capacidade de suportar longamente as subidas e usufruir rapidamente das descidas.


Então, quando você está pedalando penosamente quase no topo de uma subida, ouve a respiração forte de um ciclista jovem e marombado, pedalando em pé e te ultrapassando rapidinho. Aí novamente você apela à relatividade, com o pensamento consolador de que ele pode ser muito mais rápido mas curte muito menos a pedalagem, mal vê a paisagem, nem deve ouvir os passarinhos. Einstein diria que o prazer de pedalar é proporcional à capacidade de apreensão do mundo que proporciona.


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Na volta, descubro o óbvio, que as subidas viram descidas e vice-versa, e então o cansaço comanda, desmonto e na mais longa das subidas vou levando a bicicleta a pé. Engraçadinho grita de um carro: monta que ela te leva! Einstein diria que nossa sabedoria é proporcional à capacidade de não reagir a provocações, até porque o carro, com todos seus cavalos embutidos, já vai longe.


Lembro então de cena presenciada em sinaleiro na cidade. Todos os carros e motos esperando o sinal verde, um ciclista chega, fica se equilibrando na bicicleta como se o chão fosse queimar os pés se parasse, e passa no vermelho. Um motorista de carro grita: - Ciclista quer respeito mas não respeita!

E o ciclista grita de volta: - Fascista!


O termo “fascista” vem do Latim “fascio”, feixe, representando a junção dos valores morais com que o Benito Mussolini pretendia restaurar a glória do antigo Império Romano na moderna Itália. Procuro que procuro e não consigo achar que valores eram esses, além da famosa pontualidade (num país onde a impontualidade era norma geral e costume arraigado, Mussolini fez os trens correrem nos seus estritos horários, transformando isso em símbolo e bandeira de uma nova ordem para a nação a partir dos valores enfeixados pelo fascismo).


Mas a bela teoria, como sempre, encobria feias práticas e o fascismo deu no que deu, com Mussolini linchado e o fascismo sinônimo de ditadura. Mas pedalando penso que tudo é relativo e que, conforme Drummond, de tudo fica um pouco. Quem sabe, Einstein, se os brasileiros que hoje gritam “fascistas” ou “comunas” se guiassem por um feixe de valores como honestidade, verdade, produtividade, liberdade com responsabilidade, igualdade sem coitadismo, diversidade sem privilégios, teríamos ordem e progresso.

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