Perguntado por que passou a usar chapéu, o amigo Apolo responde que é “coisa da cabeça, talvez querendo voltar ao tempo da roça”. Faz pensar que realmente os chapéus não caíram de moda, foram é tirados da nossa roupa pelas cidades, que têm ruas sombreadas com casas enfileiradas, sem mais as distâncias da roça, e as caminhadas ao sol passaram a ser pernadas na cidade.

Entretanto a mesma urbanização que quase aboliu o chapéu também gerou seu renascimento, quando parecia que ia ser esquecido num mundo de bonés.

Indiana Jones encarnou o retorno dos chapéus, que pareciam até condenados só ao mundo sertanejo. Pois a música sertaneja se urbanizou e massificou, virando um grande movimento cultural cujo símbolo, na cabeça de cantores e cantoras... é o chapéu!

Nonno José, o Bepe, no cabideiro de madeira tinha sempre vários chapéus: pro dia, pra noite, pra chuva, e no quarto guardava o chapéu para festas e velórios. Sentava no banco da praça e botava a mão na aba do chapéu sempre que alguém passava cumprimentando, o chapéu era uma parte viva do cavalheiro. Só saía de chapéu, que sempre tirava antes de entrar em casa. E dava aos mendigos de estimação os chapéus envelhecidos, para não ter o desgosto de botar no lixo tais companheiros. Seus chapéus eram símbolos de ordem.

A queda dos chapéus correspondeu a grandes mudanças no mundo humano. Começou depois da Segunda Guerra, no tempo de mudanças mais intensas de toda a História desde as cavernas, em meio século a sucessão de Guerra Fria, rock and roll, feminismo, divórcio, computadores, celulares, a consagração das democracias e o reconhecimento das diversidades.

Assim o retorno dos chapéus se deve decerto não só ao sucesso do agro e da música sertaneja, mas também à diversidade própria dos humanos, pois sempre haverá quem goste de chapéus. E sempre haverá quem desgoste, como outro amigo que, depois de meio século, deixou de usar “porque tem gente demais usando”, enquanto por isso mesmo outros passaram a usar; cada cabeça com sua visão.

Já o boné surgiu derivado dos chapéus, que vêm desde a Antiguidade e nalgumas épocas identificavam os ricos, os militares, os comerciantes, os nobres, neste caso evoluindo para se tornar cartola. Lá pela Idade Média os chapéus perderam as abas se transformando em bonés, mais práticos na lida agrícola ou pastoril, apenas protegendo os olhos da luz solar mas ainda imunes ao vento. Foram popularizados a partir da adoção pelo beisebol norte-americano, e valorizados porque mais apropriados para inserções publicitárias , sendo hoje usados como sinal de identidade também por roqueiros, skeitistas, rappers e roqueiros, símbolos da chamada cultura de rua.

Sempre preferi bonés a chapéus, até porque se mantém perfeitos mesmo depois que por engano sentamos neles, mas lembro do nonno abanando braseiro com chapéu pra fazer fogo, coisa que boné não faz. E Santos Dumont usava seu onipresente chapéu quando levantou o 14-Bis do chão e voou aqueles primeiros duzentos metros... Mas foi de boné que Charles Lindbergh cruzou o Atlântico de avião em 1927, como a dizer que não importa o que vai por fora da cabeça mas sim por dentro.

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