O futebol se consagra como o esporte das mutações
Jogado com os pés o futebol parece consagrar nosso culto a desafios
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 2026
Jogado com os pés o futebol parece consagrar nosso culto a desafios
Domingos Pellegrini 

Não houve império que sempre durasse nem há mudança que não se apresente: e eis que na “maior das Copas” a poderosa Rede Globo foi escanteada, superada pela CazéTv que já no nome é outra-coisa - uma mutação e tanto, a lembrar que o futebol é mutante já a partir do nome inglês original, foot-ball, “bola no pé”, que se aportuguesou como “futebol”.
E entre tantos esportes, como o vôlei tão civilizado que os jogadores adversários nem se tocam, ou como o basquete com tantas cestas a comemorar, foi o futebol que acabou se consagrando esporte das multidões em todo o mundo, com Copa internacional e mitos universais como Pelé e Cristiano Ronaldo.
Parece haver uma ilógica explicação para isso: é um dos três esportes jogados com os pés, como o futsal e o futevôlei, estes limitados porém por suas quadras e areias. Assim jogado com os pés o futebol parece consagrar nosso culto a desafios, como os únicos seres no planeta que têm gosto em escalar as montanhas mais altas, reverenciando as dificuldades.
Mas o futebol se apequena com tantas faltas lesivas ou levianas, feitas não para impedir jogadas ou retomar a bola mas para ferir o adversário. E a Copa mostra que se tornou raro jogador sofrer falta e não reclamar, como Pelé e Messi, enquanto abundam os que, seguindo o estilo Neymar, fazem de cada falta uma pantomima.
Nos escanteios, a agarração dos zagueiros nos atacantes fica entre hilária e deprimente – e os juízes deixam, de modo que tornou “normal”, embora haja zagueiros abraçando tanto o atacante que parecem querer levar pra casa... E também assim o futebol se apequena.
Coisa também notável (no sentido de que não há como não ver) é o desfile de cabelos digamos artefeitos, com tranças tais que a gente se pergunta se serão apliques. Esse(a)s cabeleireiro(a)s para isso vão até os hotéis ou vestiários? E nova moda parece surgir - as barbas autoralmente aparadas, enquanto os braços e pernas cobertos de tatuagens nem são mais percebidos por serem tantos.
Mas a Copa expõe avanços também notáveis, no que os narradores chamam de tecnologia: a filmagens de impedimentos e pênaltis pelo VAR, acabando com as reclamações em campo e as discussões sem fim nos bares: se foi ou não foi pênalti ou impedimento as câmeras mostram até em milímetros e pronto. Mas há quem diga que assim acabaram com a coisa mais interessante do futebol...
Interessante é sem dúvida o público das Copas: canta, fantasia-se, grita, faz “olas” nas arquibancadas como a exaltar a criatividade humana – e algumas fantasias são tão criativas que parecem casar futebol com carnaval ou festa popular.
Mas muito destoa de festa e congraçamento as ainda atitudes racistas ou xenófobas como o governo dos EUA discriminando juiz e submetendo a vexames o time do Irã, até podendo, se persistir com isso, tornar a maior a menor das Copas. Tudo parece possível nesse jogo mutante chamado futebol.


