Quando deixei a cidade para morar em condomínio no campo, fiz o caminho inverso de meus avós, como a maior parte dos brasileiros. Ainda hoje o êxodo rural continua o maior movimento da humanidade; só na China, nas últimas décadas, centenas de milhões trocaram as sandálias rurais pelos sapatos urbanos.

Edward Glaeser, em seu livro “Os Centros Urbanos”, considera as cidades a maior invenção da humanidade, até porque geradora de outras grandes invenções. Mas relata que, claro, assim como apresentam soluções e delícias, as cidades também concentram problemas e suplícios. Cidades adoecem, renascem, transmudam.

A Roma Antiga chegou a ter mais de milhão de moradores mas, com a decadência do Império Romano, chegou a apenas cem mil, para entretanto voltar a ser a metrópole de hoje, que em grande parte vive do passado e suas ruínas turísticas. Outras grandes cidades se propulsaram com distritos industriais bem planejados e outras se flagelaram com industrialização poluidora. Bem interessante é que, em várias cidades, a expansão viária serviu principalmente para... apenas aumentar o trânsito, sem resolver seus problemas.

Para revelar como “algumas cidades nos tornaram mais ricas, inteligentes, saudáveis e felizes”, o livro foca, por exemplo, a ascensão do Vale do Silício; a reinvenção de Nova Iorque, investindo em cultura e moda, ou o sucesso da indiana e miserável Bangalore como polo de TI - sempre mostrando a importância de concentrar esforços e investimentos, além de competência, em projetos de desenvolvimento consequentes. Basta olhar Arapongas, onde um parque industrial se transformou num grande centro moveleiro.

Aponta-se que o segredo do sucesso é avaliar cada problema e cada solução, casa caso e cada projeto, com visão a partir de dentro, da vida das pessoas, daí para as pranchetas, em vez do inverso. Fica bem claro que cidades precisam de governos, que entretanto podem ser seu pior mal.

A primeira favela do Rio de Janeiro foi fruto de omissão do governo, criada por ex-soldados que, depois de derrotarem a revolta de Canudos na Bahia, receberam promessa de casas próprias na capital do país. Como o governo não cumpriu sua promessa, eles criaram a favela do Morro da Providência, iniciando uma cidade de duas caras e vida dupla, com a população dos morros servindo à população das praias. Lá o quarto de empregada é usado como despensa, pois a empregada mora logo ali no morro. Ou, como Platão já observou há 2.500 anos, “qualquer cidade é dividida em duas, uma para os pobres e outra para os ricos”.

O livro é especialmente revelador para quem ainda pensa conforme direita/esquerda. Mostra que o sindicalismo, por exemplo, quando bem operado, pode trazer desenvolvimento como, mal operado, pode ser gerador de pobreza e desemprego. Ou prefeitos negros nos EUA, concentrando punições no empresariado branco, podem apequenar uma grande cidade, com fuga de empresas e desemprego em massa... principalmente para os negros.

A educação é o principal motor da prosperidade urbana: “Vivemos numa era de especialização, em que os ganhos e o conhecimento estão intimamente ligados. Para cada trabalhador, um ano a mais de escolarização normalmente gera ganhos superiores em cerca de 8%. Em média, um ano a mais de escolarização para toda a população do país está associada a um aumento superior a 30% no produto interno bruto per capita.”

Ou seja, nosso melhor futuro está nas salas de aula, sejam das escolas municipais, dos colégios estaduais, das universidades, das escolas técnicas, dos cursos da Acil e dos seminários do agronegócio. Não temos Coliseu nem Torre Eiffel ou Vale do Silício, mas temos gente que veio de todo o mundo e pode transformar nossa cidade, se quiser estudar, aprender e evoluir.

Como agora vou pouco à cidade, me espanto ao rever sua degradação no centro mas sua efervescência na Gleba Palhano, nos Cinco (tantos) Conjuntos. Desânimo e esperança, a indicar que Londrina espera e precisa ser reinventada. A crise econômica está levando muita gente para o empreendedorismo e a re-educação. Tomara que saiamos dessa crise com uma cidade em renovação e transformação. O destino das cidades é se transformar.

mockup