AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Nossos vícios públicos


Que temos vícios nos poderes públicos todos sabemos, da burocracia à letargia, da procrastinação à corrupção, as obras começadas e abandonadas - mas também temos vícios públicos, aqueles cultivados pela sociedade. O mais evidente é o costume de tantos de “deixar para o último dia” o atendimento a todo chamamento público. O órgão convocador fica semanas à espera de um fluxo contínuo de público, que não se vê - até que, no último dia, eis as filas a dobrar esquinas... 



Já em auditórios, outro vício é a maioria sentar no fundo, evitando as fileiras da frente como se tivessem peste. Esse vício parece atender a um desejo de muitos de não se envolver, ficando longe como se a espreitar ou como se não estivesse ali. É o distancismo presencial, indício da cidadania arredia. 

 

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Esse vício é gêmeo da omissão participativa, estar presente mas nunca participante. O palestrante pergunta se alguém quer falar algo a respeito do assunto em discussão, nenhum braço se levanta, embora, enquanto isso, viceje outro vício, as conversas paralelas. Se a coordenação pede respeito, desperta um outro viciozinho que se manifesta por cochichos e narizes erguidos, a aversão à ordem, contrariando a bandeira nacional. 



Se é evento com oradores, haja paciência para suportar o vício de muitos de saudar todas as autoridades já nomeadas pelo apresentador e por oradores anteriores. E lá vem novamente a longa relação de nomes de digníssimos e excelentíssimos, numa rendição do bom senso à bajulação. 



Nessas ocasiões, também é comum ouvir outro vício, este de administradores públicos que, diante de público, falam de seu trabalho como se fosse epopeia e de obras públicas como se fossem façanhas pessoas: “Eu fiz” em vez de fizemos, “construí” em vez de construímos, e assim por diante, como se o dinheiro com que tudo foi feito não viesse dos impostos gerados pelo trabalho e pelo consumo de todos. 



É nessas ocasiões também que surge outro vício público, os aplausos puxados por assessores ou aduladores. Chega a parecer um jogo de pausas e palmas, o puxador de aplausos esperando a pausa do orador, depois de uma frase de efeito, para puxar os aplausos em série. Quando o orador nem olha para o puxador quando ele aplaude, é o evidente sinal de que fazem uma dupla preparada para seu papel nesse simulacro de teatro. 



Mas decerto nenhum vício público é mais danoso para os outros – para os pontuais – do que a impontualidade. Em lançamento chique de livro de um amigo, em Salvador, com bufê e garçons, cadê os convidados para o evento marcado para as vinte horas? E passa meia hora, ninguém, uma hora, ninguém, até que se ouve nalgum ponto do prédio o Jornal Nacional terminando e, depois das nove, começam a chegar as pessoas. Às dez horas, o salão está lotado e meu amigo autografa feliz. Comento com alguém que ninguém chegou na hora, e o baiano responde que é assim mesmo ali porque “chegar na hora é até deselegante, né”. Ou seja, o vício até desvirtua o que seria virtude se não fosse obrigação. 



Ranzinzice minha? Minhas públicas desculpas. 


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