(Depoimento gravado de amante do futebol que prefere não se identificar)

Futebol de várzea conheço de menino e de raiz, é, arrancando mato no terreiro do quitandeiro japonês, então nosso primeiro suor não foi com bola mas com enxadão.

O Tonho derrubava a facão as touceiras de capim, com picareta eu arrancava do chão aquelas raizeiras parecendo bolas de terra, que o Zé batia com facão pra destorroar e amontoar num canto, foram as primeiras bolas do nosso campinho. O japonês falou ué, até parece mesmo time, né, e deu quatro vigotas pra fincar no chão como traves dos gols.

Noutros campinhos do bairro os gols eram marcados com roupas no chão, o que até amortecia tombo do goleiro, mas as nossas traves bem fincadas ficaram com firmeza oficial, embora com quinas, pobres goleiros, além da terra dura tinham de enfrentar as traves.

E a terra endureceu de tão pisada porque a gurizada derredor adotou nosso campinho. Nós três viramos sete, tamanho de time justinho prali, e outros foram aparecendo e formando mais times. Cada jogo era de meia hora e tinha tarde de ter sete jogos, então me lembro do nosso campinho virar um campão lá pelas tantas, todos suando de pingar no nariz e embaçar os olhos.

O japonês da quitanda gostou, que assim no terreno não ia rebrotar mato, e ofereceu estender da torneira da horta uma mangueira até beirada do campinho. Mas vimos que, pra beber da mangueira, era preciso ir abrir a torneira lá na horta, então melhor era melhor beber lá mesmo, pra que a mangueira? Perguntamos pro japonês, ele falou pois é, pobrema da meninada, né. Então resolvemos botar torneira na nossa ponta da mangueira, e que escola foi aquilo. Tonho diz que ali começamos a aprender engenharia e administração, no empreendimento, como se diz hoje, de botar em pé uma torneira.

Pois a torneira mostrou que, pra ficar em pé, precisava de um cano, que precisava de estaca firme, e pra não vazar precisava ser bem feitinha a emenda do cano com a mangueira. Daí vimos que, em vez da mangueira, melhor serão então um cano deitado no chão, ou melhor até, enterrado pra não ser pisado, e fomos que fomos aprendendo, só com ferramenta emprestada e sempre em equipe que nem no futebol.

O bebedouro ficou tão bom que convidamos nossas irmãs pro jogo de inauguração, foi quando o Zé conheceu a Né e assim depois o campinho me deu sobrinhos. O jogo foi contra um time de se sete mais altos que o mais alto de nós, mas ganhamos de 7 a 6 com gol de cabeça. O Zé driblou e passou pro Tonho, que apontou pralá e centrou pracá, como se colocando a bola na minha cabeça, o gol mais inesquecível da minha vida.

Depois, fazendo vaquinha com a meninada toda pra comprar pregos e tábuas, erguemos um banco comprido de dois degraus pra uns vinte sentantes, até meu pai sentou lá pra ver jogo de-camisa.

É, chegamos a jogar com camisas de time no nosso campinho, sempre times de 7, então chamamos de Campinho do Garrincha.

Dali o Tonho saiu pra treinar juvenil e virou profissional. O Zé virou empresário, era quem tinha as ideias enquanto eu, como ele diz, era o gerente. E outro dia passamos lá, o japonês se foi e o filho faz floricultura no terreno, de modo que agora nosso campinho flore.

Então olho e ainda me sinto jogando ali, porque, do mesmo jeitinho de quando jogava no nosso campinho, sinto batendo menino o coração.

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