Nossa geada verde
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de julho de 2019
Domingos Pellegrini 
Lembrança das mais antigas: menininho eu estava na rede, todo encasacado, a mãe lidava com a louça, reclamando da água tão gelada que endurecia a mão, e de repente alguém chegou com a notícia - tinha geado! Geada, geada, a palavra foi ecoando de boca em boca, avivando no menino a curiosidade, que era aquilo? Então a mãe pegou pela mão, levou para o quintal e aí mostrou, numas folhagens ainda na sombra, a camada de orvalho endurecido. Que decepção: tanto falatório só por causa daquilo? Voltei para a rede irritado de não poder brincar no quintal só por causa daquele gelinho.
Vinte anos depois daquela primeira geada negra de 1955, na de 1975 repeti o gesto da mãe, pegando pela mão um filho criança e levando para ver o mundo geado: céu claríssimo, ar limpo onde o bafo das bocas nos fazia dragões, ele com as primeiras luvas da vida. E, de repente, pisamos na grama do jardim e ele assustou me olhando a esperar explicação: os passos estralavam! Mostrei que a geada tinha coberto a grama da mesma camada de orvalho endurecido, e o menininho então se divertiu pisoteando até molhar as botinas. Depois, nos noticiários vimos bonecos de neve em Curitiba, gente brincando de guerrear com bolotas de neve, enquanto cafeicultores lastimavam a perda total dos cafezais.
Mas geadas confirmam o samba de Billy Blanco, “o que dá pra rir dá pra chorar”. Pois em 75 um agrônomo explicaria ao então repórter:
- Geada é ruim para as plantações mas é boa para as plantas.
- Cumé quié?!
- É, geada mata plantações mas também os ácaros, os fungos, as pragas. É como uma grande limpeza, deixando o campo limpinho para as plantações seguintes.
Triste porém foi ver cafezais sendo derrubados, os cafeeiros arrancados com raiz por grossa corrente puxada por dois tratores, suas fundas raízes de repente aflorando, a galharada seca ajuntada em grandes fogueiras.
Mas depois as mesmas terras, enfim libertas daquela cafeicultura antiga, passaram a conhecer a soja, o trigo, os tratores e colheitadeiras que plantariam também tantas cooperativas e indústrias.

Triste foi ver tanta gente chegando do campo para a cidade, procurando emprego urbano mas com experiência só de trabalho rural. Entretanto foi bonito ver como aquela gente trabalhadora se virou, como o milho vira pipoca.
O êxodo rural também virou transformação urbana, basta lembrar do Cincão quando ainda eram mesmo apenas cinco conjuntos, as casas iguais enfileiradas sobre a terra vermelha como em foto bicolor, e comparar com os tantos bairros de hoje, onde é raro achar casas ainda no formato original, quase todas ampliadas, reformadas, ajardinadas, cada uma com suas cores como a dizer que gente é sempre diferente.
A atual crise econômica é como uma geada a se estender por anos, mas do mesmo jeito alterando a paisagem, para pior por um tempo, para melhor para sempre. É como um empurrão para a tomada de decisões adiadas que passam a ser inadiáveis.
Sim, são milhões de desempregados. Mas também são milhões de novos trabalhadores autônomos e micro-empresários, aprendendo na prática a diferença entre emprego e trabalho, estabilidade e oportunidade, crise e criatividade.
Quando a geada é tão fria que congela a seiva dos cafeeiros, eles morrem com as folhas enegrecendo, daí o nome geada negra. Mas o Iapar criou cafeeiros que resistem a geadas, a ferrugem e várias doenças. E, também com renovadas técnicas de trato, a cafeicultura renasceu com mais qualidade de bebida e preços melhores, também transformação enfim.
Então, na última semana, fiquei esperando surgir nos noticiários a fatídica expressão “geada negra”, até perceber que isso não existe mais para quem, em vez de só olhar o ontem, vê no hoje o amanhã. Agora, aprendendo e transformando, só temos geadas verdes.


