Aos leitores que estranharam a série Nemteconto: são histórias breves, vaptistórias, em variadas formas e focos. Quando narradas na primeira pessoa (eu), não se referem necessariamente a fatos acontecidos comigo:

EU ME PROMETI só falar coisa boa nesta redação do Enem, então o que é que posso dizer desse tema, a educação dos surdos, ora, ninguém pode ficar surdo e muito menos mudo num tema assim, e a primeira coisa a dizer é que os mudos tem ao menos de dar graças a Deus de poder falar com as mãos. Porque cada mão tem cinco dedos e assim dá pra falar muita coisa porque os dedos se misturam na fala dos mudos como as letras e palavras se misturam na fala de nós outros que não somos surdos nem mudos graças a Deus. Aliás é até o caso de se pensar porque Deus criou gente surda, que não pode ouvir uma bela música mas Deus sabe o que faz, assim surdo também não tem de ouvir carro de som, sertanejo a mil e hip-hop de arrepiar. Mas pior ainda é mudo, sentir a emoção dentro do peito e só poder falar com as mãos que não tem emoção, né, embora decerto nisso o olhar ajude, embora ideal mesmo seria que os surdos e mudos tivessem as mesmas oportunidades de todos até mesmo em shows e concertos, pois ouvi dizer que eles sentem as vibrações e afinal é um direito democrático pois conforme a constituição todos são iguais mesmo apesar dos surdos e mudos não tão iguais assim.

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NA ÚLTIMA VEZ em que vi o Paulinho foi antes da doença, né, então ele ainda tinha aquela alegria que a gente tanto conheceu e, ah, quem perguntou de você foi o Alaor, coitado, arrastando tanto a perna que o Arlindo apelidou de deixa que eu chuto, que crueldade, mas o Arlindo também chutou tanta pinga pra dentro que agora tá na fila do transplante, antes que a cirrose mate como o diabetes matou a Deda, coitada, mas aí acho que foi mais da amargura de viver com aquele safado do Nestor que dela fez gato e sapato, você viu a cara dela no caixão? Foi uma beleza a cerimônia da cremação mas só tinha água morna pra beber, e agora, se você não tem mesmo um tempinho pra falar com sua velha amiga e saber das novidades da nossa turma, adeus, vai viver tua vida, você sempre se afastou mesmo de mim, até já considerava nossa amizade morta e nem sei porque...


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PROCURO CADELINHA branca com manchas mostarda, carinhosa, é só estralar dedo e ela vem, gosta de carinho que só vendo, então estou aqui apelando no zapzap que quem der com ela, é só agachar assim e, ai, quase caí, mas é só estralar o dedo assim e pronto, ela vem, atende pelo nome de Tarda, por causa das manchas mostarda, ideia do meu neto que está procurando ela pelas ruas, então quem souber, olha uma fotinha dela comigo na praça, fiz até porta-retrato, e tem foto aqui no celular também mas eu não sei como fazer pra mostrar, espero que esteja gravando e gratifico com um bolo de fubá com coco que conforme meu neto é o melhor do mundo, então não tarde, Tarda.




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ELE JOGOU NO 19, deu 20. Dia seguinte jogou no 20, deu 19. Esperou dois dias, jogou no 20 de novo, de novo deu 19. Dia seguinte jogou no 19, não deu, mas no novo dia seguinte deu. Então jogou no 20, deu 19 de novo, o da banca até falou nossa, como deu 19 e 20 nesses últimos dias. Aí ele esperou tempo, um dia resolveu assim no repente, como deve ser palpite bom, e jogou no 19 e no 20, deu 18 e 21. Jogou de novo no 19 e no 20, deu 17 e 22. Então jogou 17, 18, 21 e 22, deu 19 e 20, ele nem acreditou. Sentou no meio-fio com o papelzinho na mão, olhando os números, e foi pra casa tonto, olhando o papelzinho. Dia seguinte voltou com o papelzinho, jogou tudo de novo, 17, 18, 19, 20, 21 e 22. Esperou o resultado ali mesmo no boteco, esticando a cerveja até o último gole mais morno que água de cachorro. Deu 16 e 23. Ele foi em casa, pegou a televisão, vendeu por mixaria, voltou ao boteco dizendo que queria jogar em todos os números de 1 a 100. Falaram bobagem, só vai perder dinheiro, ele quis brigar. A família entrou na história e ele acabou internado mas tiveram de tirar da porta a plaquinha com o número do quarto, ele não pode mais nem ver número!

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