Em 1959 o rock avançava pelo mundo com discos de Little Richard e Elvis Presley girando nas vitrolas, com Bill Haley sacudindo bailes, a moçada descobrindo o “dançar solto”, os casais sacolejando juntos sem se abraçar e até com acrobacias, e assim parecia que até na dança o rock ia engolir o samba.

Era uma avalanche musical, as orquestras se reinventando para acompanhar a onda, enquanto o próprio samba começava a se jazzificar adotando coisas do chamado bebop-jazz. Parecia uma invasão estrangeira nas rádios brasileiras.

Então eis que Jackson do Pandeiro, compositor e cantor com discos de sucesso, homem-show como cantor, com sua mulher Almira ao lado dançando xotes e forrós, Jackson grava Chiclete com Banana. A música, um samba-rock conforme seu compositor, pode ser vista como símbolo de disputa ou de integração entre Brasil e EUA, e tem um ritmo híbrido sacolejante e cheio de síncopes, com essas pausas valorizando as palavras.

O compositor é Gordurinha, nome do humorista, cantor, compositor e ator Waldeck Artur Macedo, autor de muitos sucessos como Baiano Burro Nasce Morto. Esperteza ele já demonstra no título Chiclete com Banana, para uma música dançante como o rock e, ao mesmo tempo, um protesto e uma proposta esperta de integração.

Muito se falou que, para ter a música gravada por Jackson, Gordurinha aceitou constar como autora da letra a mulher de Jackson, Almira Castilho, que porém tem outras composições. Certo é que, depois de muito gravada e no repertório de muitas orquestras, o primeiro samba-rock se tornou música icônica do relacionamento musical Brasil/EUA, que ajudou a gerar a Bossa Nova.

A letra é tão petulante quanto graciosa: “Só boto bebop no meu samba / quando o Tio Sam pegar no tamborim / quando ele pegar no pandeiro e na zabumba / quando ele entender que o samba não é rumba. / Aí eu vou misturar / Miami com Copacabana / chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”.

Seguem-se floreios vocais com a palavra bebop e também apenas dois versos, “quero ver a grande confusão” e “é o samba-rock, meu irmão”. Em vez de lamentar pelo samba acossado, gera-se um novo tipo de samba com fraternidade explícita em “meu irmão”.

A música tem uma pouco usual terceira parte, onde a integração musical tem um retruco a propor reciprocidade: “Mas em compensação / quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão / quero ver o Tim Sam de frigideira / numa batucada brasileira” – repetindo-se desafiante ou proponente – “Quero ver o Tio Sam de frigideira / numa batucada brasileira”.

Ao semelhar-se ao boogie-wogie originário do blues mas dançante, o samba se miscigena, gerando o samba mestiço. Assim Chiclete com Banana faz pensar no relacionamento Brasil/EUA, que passa por atritos e transtornos políticos e econômicos, “a grande confusão” conforme o samba-rock. E parece dar a dica de que, em vez de disputa, melhor será a cooperação criativa, como é o samba-rock de Gordurinha e Almira. Como a dizer que, com criatividade, chiclete pode ou até deve combinar com banana.

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