AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Morte e ressurreição


Leio no Militão que morreu Ricardo Sampaio, de quem fui colega como repórteres nesta Folha há meio século. Dalva e eu íamos rever Ricardo e Sueli na semana seguinte, então a notícia nos soca e tonteia.


Lembro que, depois de meu primeiro dia no jornal, sentamos em banquinhos na lanchonete abaixo da redação e, esperando nossos sanduíches, ele perguntou se eu conhecia o romance A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Falei que não e ele passou a recitar o romance até chegarem os sanduíches.




Até hoje, penso ainda atordoado, não sei se ele conhecia o romance inteiro de cor, mas do Ricardo não duvido nada. Como repórter era um fenômeno: ouvia anotando uma palavra ou outra numa lauda dobrada na palma da mão, depois na redação mal olhava as anotações e datilografava sem interrupção, a velha Lexikon 80 virava metralhadora de palavras.


Depois trocou o jornalismo pela advocacia e em audiências citava de cor páginas inteiras de legislação. Mas a advocacia logo perdeu Ricardo: passou em primeiro lugar no concurso para juiz e assim pôde escolher viver em Curitiba, onde chegou a presidente do Tribunal Regional do Trabalho. Sua produtividade como juiz era admirada pela cidadania e detestada pela burocracia.


Aposentado, foi descansar? Não, passou a ser fazendeiro em Brasilândia, onde, além de criar bois, cultivava jardim com belas plantas como a de sua foto. Quando perguntei do administrador da fazenda, ele falou sou eu. Mas como conseguia cuidar à distância de tantos bois? Com um capataz, contou, com o celular e com todos os bois chipados. Posso te dizer agora, falou, onde está cada um, não duvidei.


Passando semana na fazenda, Dalva e eu vimos Ricardo triste no último dia, Sueli contou: o filho do capataz tinha feito besteira, Ricardo tinha repreendido e o pai tomou as dores do filho, pedindo demissão. Ricardo explicou:

- Lidar com bois é fácil, difícil é lidar com gente...


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. | Reprodução
 




Nas postagens no zap mostrava estilo e visão, como nesta: “Impeachment é traumático, temo que o Brasil se acostume a utilizá-lo como um sucedâneo do parlamentarismo, que não temos por cobiça e falta de visão dos constituintes de 1988”.


Noutra postagem revelou: “Quero analisar com você a ideia de uma 'comunidade naturista intelectual' que ando cogitando aqui na fazenda, cada par morando em sua casinha, com um centro comum, para o que der e vier, conversas em volta de fogueira sob as estrelas no centro da galáxia, com divisão de tarefas rurais, observação dos pássaros, culto ao sol, quase uma colônia anarquista”.


Com Ricardo, seriedade e brincadeira andavam de mãos dadas, e fico pensando quanto disso seria um projeto, quanto seria uma pilhéria. Mas também lembro do Ricardo juiz, que um dia disse trabalhar até quando corria no parque: ia correndo e pensando nalgum processo em julgamento e, quando voltava ao trabalho, estava com a sentença pronta na cabeça, era só sentar e digitar. Pois a felicidade, dizia, tem duas chaves:

Trabalhar no que gosta e gostar de trabalhar.


Ultimamente passava temporadas em Portugal, onde viu o seguinte:

- Os portugueses também saíram duma ditadura e foram pra esquerda, depois pra direita, mas, ao contrário de nós, enfim foram em frente...


E eis que Dalva consegue falar com Sueli: Ricardo está vivo, estão em Portugal e o falecido era um quase homônimo também juiz.

- Mas – zapeia Ricardo - gostei muito de ver tanta gente falando tão bem de mim! Dá até vontade de morrer mesmo, mas aí não vou ter a vantagem de ler meu necrológio ainda vivo!

Conto que vou escrever uma crônica sobre sua quase morte, e ele:



- Espero estar vivo para ler...

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