Marina Colasanti continua muito viva para quem a conheceu
Um dia ela disse que admirava as menores moedas alemãs porque eram “campeãs na luta contra a inflação”
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de fevereiro de 2025
Um dia ela disse que admirava as menores moedas alemãs porque eram “campeãs na luta contra a inflação”
Domingos Pellegrini 

Viajar com Marina Colasanti era uma aula contínua de gentileza e fineza. Ela tratava a todos como únicos, inclusive o elevador do Meinecke Hotel, que hoje é hotel de rede mas naquele 1996 era um velho hotel charmoso que já fora moderno, numa rua quieta no centro de Berlim.
Estávamos ali como escritores convidados do governo alemão, e o intercâmbio cultural começava com o elevador, que tinha mais de noventa anos e paredes de grades metálicas, como também a porta de correr puxada à mão. Como o hotel tinha só três andares, e a escada descia contornando o elevador em três lances a cada andar, dela se via e até se podia falar a quem estava no elevador.
Marina ficou encantada, inclusive com o nome do elevador, Goethe, o escritor orgulho da Alemanha. No café da manhã, ela chegou depois da hora marcada pelo grupo de escritores, mas já se explicando, estava com Goethe:
- Fui conhecer melhor. É um cavalheiro muito elegante, tão pequeno e tão cheio de grandes detalhes.
Além da programação oficial a que comparecer sempre, conforme o dia sobravam manhãs, tardes e/ou noites livres, quando o grupo se dividia para ir a concertos, cafés e locais turísticos, e alguém sugeriu visitar o Jardim Zoológico, um dos maiores e melhores do mundo. Marina arrepiou:
- Zoo não, fico com muita dó dos bichos.
No café da manhã, soubemos que uma máquina, como um criado eletrônico num canto, servia multifruten, e perguntei a nosso guia o que seria isso. Um suco de várias frutas, explicou ele zeloso e um tanto orgulhoso, “tem todas as vitaminas”. Então provamos aquilo, ele perguntou o que achamos e eu, por respeito, falei que era bom, tinha todas as vitaminas, né, e Marina:
- É, só faltam as frutas.
Como eu já conhecera Berlim década antes, quando tinha amigos exilados lá, nas horas livres fazia incursões noturnas por bares e diurnas pelos parques, e Marina disse que tinha inveja e pena ao mesmo tempo:
- Inveja porque pra mulher é difícil andar sozinha... e pena porque quem só faz o que quer está sempre sozinho, não?
Entendi a dica, passei a participar mais dos programas do grupo, ouvindo histórias desses seres que vivem de contar histórias, e, quando brindavam, Marina me lançava um olhar como a dizer “viu o que você estava perdendo?”
Uma guia pediu cerveja num copo imenso de mais de litro, e a cerveja, descendo, ia deixando rodelas de espuma seca no copo... Marina perguntou por que beber em tal copázio, a guia respondeu que era por assim ser mais barato. Marina soprou:
- Prefiro pagar mais pra beber geladinho num copo bonito.
Um dia disse que admirava as menores moedas alemãs, de centavos e gastas pelo uso de décadas, porque eram “campeãs na luta contra a inflação”...
Gostaria que ela tivesse conhecido Dalva, a quem falei de Marina um dia antes de sua morte.
A foto é de quando ela esteve em Londrina lançando livro e eu lhe disse que, pelo jeito, ia continuar sozinho, e ela:
- A gente só está sozinho quando não tem nem de quem lembrar.
E as lembranças são um jeito de enganar a morte, não? Pois você deixa tantas boas lembranças, Marina, que vai continuar muito viva.


