AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Marchas e contramarchas


Tudo começou com a marcha de Adão e Eva, do Paraíso para este mundo, depois as marchas foram fazendo História.

A maior das marchas continua em curso, a do hominídeo negro saindo da África há zilhão de anos para chegar a todo o planeta, tomando a forma de roliços esquimós, sardentos escoceses e assim por diante.



E as grandes marchas? Tivemos desde a cinematográfica fuga do Egito, a passar pelo mar se abrindo, até a marcha incessante de Gengis Khan, o mongol nômade que, por isso mesmo, criou o maior e mais efêmero dos impérios, durou menos de dois séculos. Com centenas de mulheres, Khan deixou tantos filhos que hoje, cruzando rastreamento de cromossomos com mapeamento da suas marchas, conclui-se que só pode ter sido ele a fonte genética de 0,5% da população do mundo em países na Europa e na Ásia. Na Mongólia, seus descendentes são 34% da população!


Elegância em marcha da Revolução Constitucionalista de 1932
Elegância em marcha da Revolução Constitucionalista de 1932 | Reprodução
 


Impérios não permitiam marchas urbanas, mas com a Marcha à Bastilha começou em Paris a moderna democracia. Entretanto também ditadores chegaram marchando ao poder, como Mussolini com sua Marcha para Roma, e já para Hitler as marchas apoteóticas eram a maior delícia do poder. Mas Ghandi derrotou o império britânico marchando sozinho de manto e sandálias pelo centro de Londres, fazendo de cada caminhada um comício sem palavras que repercutia no mundo.. E foi também numa marcha que Luther King disse ter um sonho, que continua rolando na realidade e mudando os Estados Unidos e o mundo.


As Marchas com Deus pela Família, em 1964 no Brasil, prenunciaram o golpe militar que conteria a “maré vermelha” e se transformou em ditadura. Já a Passeata dos Cem Mil, em 1968, inaugurou contra a ditadura a resistência de massa, confirmada depois por crescentes vitórias eleitorais da oposição, numa ditadura que permitia partido de oposição.

Chegamos então às imensas marchas Diretas Já, e daí seria um pulo até as marchas ganharem cor, quando Collor pediu para todos vestirem preto contra seu impiche e a moçada foi para com roupas e caras coloridas.


Depois vieram as marchas vermelhas da esquerda, tantas que se tornaram contramarchas, acabando por ser uma das causas da vitória eleitoral da direita. A direita, no poder, faz então o mesmo que a esquerda fez com tantas marchas.

As maiores marchas porém não foram de esquerda ou direita mas apenas de gente cansada de corrupção e desgoverno, em 2013, rejeitando partidos e políticos – e, por isso mesmo, colhendo dispersão depois. Escancararam porém o dilema central, que não é mudar os governos mas o sistema político, evoluindo a democracia.




As grandes marchas surgem de faíscas, como as que derrubaram como dominós as ditaduras soviéticas. Sonho que, pós-pan, surja a faísca de marchas por voto distrital, parlamentarismo, fim das reeleições sem fim e de tantos privilégios estatais. Grandes marchas por poderes públicos com menos custo e mais serviço, uma nova ordem de menos privilégios para poucos à custa de tantos impostos. Devo ser só um sonhador, mas ainda é permitido sonhar, não?


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