Imagem ilustrativa da imagem Mangas
| Foto: Shutterstock



Mangas

Moleque cheguei a viver mais em no alto de mangueira que em terra, nos fins de semana quando não tinha escola e podia trepar na mangueira de manhã e de tarde, mesmo quando não houvesse mangas maduras. A mangueira era meu navio, meu balão, meu tanque de guerra, meu avião, e eu o piloto destemido a enfrentar batalhas e me lançar em aventuras, embalado pelo meu companheiro de viagem, o vento.
Era num tempo em que os filhos pediam bênção aos pais antes de sair de casa, em toda casa havia quintal e em muitos quintais elevava-se mangueira. E, como os guris varejavam os quintais dos amigos, todos conheciam as variedades de manga do quarteirão. A rosa, gostosa de morder porque miúda mas muito fibrosa. A espada era gostosa de chupar o caldo, espremendo depois de morder o bico. A bourbon era boa mas rara, e a coração-de-boi grande demais, como a coquinho era muito pequena, mas até para variar todas as mangueiras eram visitadas. Se a casa não tinha guris, a gurizada batia palmas para perguntar prestativamente: - A senhora não quer que a gente panhe manga pra casa?
Meio século depois, eis que a manga volta a minha vida graças à manga Palmer, que no mercado está destronando a Tommy que destronou a Haden. Ambas são gostosas mas tem fibras e são pesadas, principalmente para comer à noite. Já a Palmer não tem fibras, é gostosa como só e macia como que, e na net vejo que tem minha idade: surgiu selecionada geneticamente na Flórida em 1949, entrou no Brasil em 1960 e a maioria das colheitas vem de plantações irrigadas no Vale do Rio São Francisco, assim simbolizando feliz união entre natureza e tecnologia.
Com a culinária se tornando coqueluche e a nutrição ditando normas de alimentação, a manga ganha status de alimento nobre, participando de saladas, compondo molhos, virando sorvete chique ou suco de atletas, assim se confirmando como a fruta fresca mais consumida no mundo. Mas para mim continuará sendo sempre, antes de tudo, a manga da Dona Cida. Era uma senhorinha encurvada pela velhice, que recebia a meninada com alívio, dizendo que eram seus "salvadores de manga", colhendo antes que esborrachassem no chão. E nos fornecia sacolas para encher na mangueira e levar para casa, com o compromisso de devolver depois, quando voltavam com pão feito em casa ou algum doce de nossas mães. Dona Dita tinha a esperteza da solidariedade.
Um dia, peguei no chão uma manga caída, vi que um lado estava batido, desprezei. Dona Dita catou e, sem nada falar, descascou com faca e comeu a parte boa, com muito gosto, me dando um pedaço e depois uma piscadela e um sorriso que ensinaram tanta coisa! Combater desperdício. Usar com perícia. Apreciar compartilhando. Até hoje, mais de meio século depois de Dona Cida ter descido à terra de onde vem as frutas, sinto o sabor daquela manga.

Notícia da Chácara

Imagem ilustrativa da imagem Mangas
| Foto: Dalva Vidotte/Divulgação



JACATOMBE
Voltando novamente à meninice, inesquecível foi o dia em que vendaval derrubou jaca madura diante de mim e foi aquele espotacho, como dizia nonna Paulina, ou um jacatombe, baita susto com doce aroma. Agora, vejo a jaca surpreendentemente acompanhando saladas em restaurantes, além de se introduzir deliciosamente nas sorveterias. Como a manga, é herança indiana que há cinco séculos as caravelas portuguesas espalharam pelo mundo, pioneiras da globalização.

mockup