Lembranças do tempo dos jipes e das estradas de poeira e barro
Tinha chovido um dia antes, e começou a chover forte, a capota vazava, os atoleiros se emendavam e o jipe ia patinando
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 2026
Tinha chovido um dia antes, e começou a chover forte, a capota vazava, os atoleiros se emendavam e o jipe ia patinando
Domingos Pellegrini 

No tempo dos jipes
Embarquei em viagem de lembranças vendo um jipe Willys com placa de 1951, e era 1958 quando minha mãe, separada de meu pai (naquele tempo em que mulher assim era mal chamada “desquitada”, como se fosse um xingamento), minha mãe resolveu visitar sua irmã Glória em Cruzeiro do Oeste.
Fomos com nossas malas até um jipe-táxi de capota de lona, e o motorista estranhou:
- A senhora vai sozinha?
- Não, vou com meus filhos e Deus.
As estradas eram todas de terra, como então era até a pista do aeroporto em Londrina, e ela falou que bom, não vamos ter poeirão - mas o motorista falou que era melhor do que chuva, “poeira a gente vara, chuva atola”.
Tinha chovido um dia antes, e começou a chover forte, a capota vazava, os atoleiros se emendavam e o jipe ia patinando.
Eu e a irmã Anavaly íamos nos bancos traseiros, sobre os paralamas duros cobertos com cobertores para amaciar, as pernas sobre as malas, mãe no banco da frente com o motorista. Reze, dona, dizia ele diante de cada atoleiro, até que parou de chover mas também paramos diante de fila de caminhões, barrados por caminhão com roda entalada em valeta e enviesado na estrada.
Não tem jeito de passar? – ela perguntou e um caminhoneiro respondeu não, dona, só se for pelo cafezal. Ela tirou os sapatos e foi pro cafezal, os pés afundando no barro, e vários ajuntaram ali curiosos.
Ela voltou dizendo que, se fosse homem e tivesse picareta, arrancava cafeeiros pra contornar aquele encalhe, então surgiram picaretas que vários homens disputaram para abrir a passagem pelo cafezal. Afinal de volta ao jipe ela disse que tinha de agradecer a Deus aquele encalhe ser do lado do cafezal e não da mata do outro lado da estrada, ou teriam de arrancar árvores... e os homens riram bonito.
Um falou dona, agora espero que a senhora me ajude. Contou que ia de carona num caminhão, pra ver a mãe morrendo em Cruzeiro e... nem precisou terminar de falar, ela falou sobe no jipe e vamos lá.
Assim Ly e eu nos esprememos num banco só, pra ele ir no outro banco, e de novo mãe daria graças a Deus quando o jipe derrapou e a roda se enfiou em valeta de enxurrada, e só saiu dali, roncando furioso, porque nosso carona tuchou muito mato diante das rodas e empurrou de gemer alto.
Chegamos em Cruzeiro já bem noite e, quando ele desceu do jipe, ela falou fico grata ao senhor, e ele: pois, dona, fiquei tão admirado da senhora que vou lhe confessar, não tenho mãe doente não, e sim uma moça bonita a me esperar pra casar e, se pudesse, queria até ter a senhora como madrinha.
Pois, ela falou ainda no jipe pra ele em pé no barro, diga a sua noiva que ela vai ter de marido um homem que sabe lutar e Deus lhes dê filhos com a força do pai. E estendeu a mão, ele pegou e ajoelhou no barro, já que as calças já estavam mesmo embarreadas, e ajoelhado assim beijou a mão de nossa mãe.
Depois o jipe rodou e ela falou bem, gente, nada como conhecer uma pessoa decente.
O homem com os joelhos embarreados ficou acenando na rua embarreada. E tia Glória, ao nos ver descer do jipe diante de sua casa, falou nossa, Maria, é você?!
E ela: em barro e osso, minha irmã.
Grato pelas lembranças, jipe, 1951!


