Minha sogra, Lúcia Vidotte, completa oitenta anos e a família faz almoço compartilhado aqui em casa: um traz as bebidas, outro a sobremesa, o terceiro a carne, para juntar ao nosso arroz-feijão com salada. Almoço para dona Lúcia terá de ser com o cardápio básico brasileiro. Foi com essa comida (muitas vezes com ovos em vez de carne e com salada da horta) que ela criou os quatro filhos com muito equilibrismo.

Pois a mulher pré-feminismo tinha de se equilibrar entre limpeza e arrumação da casa, lavação e passação de roupa, cozinha e cuidação dos filhos, e a mulher do campo ainda cuidava da horta, da vaca, das galinhas e do porco. Até por isso, os filhos de dona Lúcia tiveram desde criança lições para a vida, como arrumar a cama e lavar a louça. A filha lavava, um irmão enxugava, outro guardava, e, depois das louças, iam encher os cochos ou recolher ovos, a trabalhar brincando ou a brincar trabalhando, educando-se para vida afora encarar trabalho com prazer. Assim se iniciavam também no trabalho em equipe hoje tão decantado, tanto que todos se tornaram empreendedores ou chefes.

Mudando para a cidade, foram morar no Parque Ouro Branco, quando as ruas eram ou atoleiro ou poeirão e ainda havia em redor ribanceiras e barrancos. Então, um por vez cada irmão se enfiava dentro de um velho pneu de trator que, empurrado pelos outros, rolava ribanceira abaixo, eita brinquedo bão! Cansavam, iam descansar no “cinema”: deitar no barranco chupando cana e vendo nuvens. Noitinha, a mãe chamava, eles vinham com os cabelos duros de poeira, os pés descalços vermelhos de terra, já sabendo que, antes do banho, teriam mãos e pés vigorosamente esfregados com bucha (e hoje todos tem todas as unhas perfeitas, ao contrário de tanta gente com unhas estragadas pelo descaso).

Quando começou a sobrar mês no fim do dinheiro, dona Lúcia, que já fazia as roupas da família, passou a costurar para fora. Seu filho Eduardo hoje mantém alta na sua empresa a placa de madeira que fez então para a mãe pendurar na porta de casa: Lúcia Costureira – e esse orgulho da mãe eles mantém misturado com carinho e cuidados. Raro é o dia em que não passam em sua casa, levando um agrado, perguntando da saúde, providenciando isto ou aquilo, tomando seu café sempre pronto. E os netinhos pedem a bênção à vó como antigamente.

Ela mora em casa de madeira, como nossos pioneiros, e como eles também conhece todos os vizinhos, trocam mudas de flores, pedaços de bolo, entre conversas de calçada ou portão. Sem-teto batem palmas no portão, ela diz que são sem-vergonha, isto sim, mas não deixa de dar a todos um prato de comida.

Dona Lúcia
Dona Lúcia | Foto: Dalva Vidotte/ Divulgação

Antes das refeições sábado ou domingo em sua casa, puxa um Pai Nosso e uma Ave Maria, depois de agradecer a Deus pela comida, pedindo “que nos dê saúde no corpo e fortaleza no espírito”. Sua comida é simples como só e gostosa como que, e sua casa é exemplo do casamento entre paz e simplicidade.

Apesar das dores “aqui e ali, sempre tem uma nova”, encontra tempo e ânimo para cuidar de seu jardim, tão pequeno quanto florido. Ali o alecrim. Lá a cebolinha. Acolá manjericão. As roseiras agradecem cada poda com estupendas rosas, e todo ano abrem-se gloriosas suas orquídeas. Ela conta a história de cada floração, daonde veio a muda, quantos botões abriu na última florada, dedicada a cada detalhe de seu pedaço do mundo.

Mas também olha o mundo mesmo, pela janela da tevê. Novela não vê porque “é muita enrolação e quase só tem gente que não trabalha”. Mas acompanha as novelas políticas e judiciárias do noticiário, e defende seus pontos de vista sempre coerentes com sua vida de trabalho e honestidade. Agora mesmo, sobre a reforma da Previdência, diz “tomara que não seja só para os pobres”...

“Feliz foi Adão que não teve sogra”, apregoavam parachoques de antigos caminhões – e é claro que Adão não teve sogra nem mãe: se tivesse, talvez Eva nem comesse aquela maçã. Mas as famílias mudaram tanto desde o tempo daqueles caminhões, então esperemos que esse gracejo sem graça também mude. Pode ser: “Minha sogra é minha segunda mãe”.

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