Agorinha mesmo os passarinhos cantavam tristes como sempre no final do dia, daí Vésper acendeu branca, Marte rosadinha, como a dizer que são planetas pequenininhos comparados com as estrelas, mas estão pertinho...

Imagem ilustrativa da imagem Fazendo fogueira
| Foto: Shutterstock
Vênus branquinha Marte vermelha brincos da noitinha



E, quando o céu já todo pisca estrelado, a lua se levanta poeticamente amareladona, na verdade inchada pela ilusão de ótica e rosada pela poeira da atmosfera - mas logo subirá brilhante e estenderá seu manto branco.

Tardinha escurecente noitinha estrelante lua rainha



Que fazer diante de tal lua cheia? Fogueira! Temos galhos trazidos das redondezas, então toca a catar gravetos, já que sem eles a fogueira não acenderá, ficaremos soprando fumaça, olhos lacrimantes. Mas eis uma ponta de galho caída de árvore, é só quebrar nas mãos e pronto, agora basta apresentar aos gravetos seu parente sofisticado de cabeça vermelha, o palito de fósforo e... eis o fogo!

Graças aos gravetos olá línguas do fogo falando em silêncio



Já vão se formando brasas, as pérolas mais brilhantes, entretanto as únicas que não se deixam comprar. E, se alguém nunca disse que olhando o fogo a gente sonha e diante do braseiro a gente medita, está dito.
Tive avô tropeiro, quaquavó índia, e decerto antepassados italianos cataram lenha nos bosques para passar o inverno. O fogo está no sangue, a fogueira na alma.

Fogueira afinal renasço tropeiro viro neandertal



O fogo sobe, feliz com tanta lenha por queimar, como a gente na juventude cheio de energia... Mas depois as brasas durarão mais e só as cinzas amanhecerão - e florirão, enterradas aqui e ali para adubar as plantas. Entretanto, enquanto tem lenha, o fogo teima em queimar.

Quanto mais furioso o fogo mais fugaz



De repente Branquinha late, deitadinha que estava já se põe de pé num salto, a pelagem eriçando no lombo; e rosna, corre até um arbusto, fareja, fareja, rabo erguido, até voltar de rabo baixo.

Farfalha a folhagem o cão se atiça era só brisa



A caça da cachorra nos dá fome, e basta uma corridinha até a cozinha, despejar feijão no liquidificador e bater com gengibre, esquentar e encher cuias para, como os tapuias, sorver sem colher na beira da fogueira.

Caldinho de feijão na beira da fogueira coração quentinho



O fogo vai perdendo a batalha para as brasas, vai se formando o braseiro e, se o fogo tinha línguas, o braseiro tem boca, uma caverna rutilante cavada num toco. Em redor, o braseiro vai se cobrindo de cinza, que avermelha com a brisa, volta a branquear, volta a brisar, volta a branquear.

Há fogo ainda mas só a cinza amanhecerá



A cinza a cobrir as brasas lembra as cobertas da cama que nos acolherá. Pegamos o trem escuro do sono e, de manhã, pela janela se vê ainda a ex-fogueira a soltar fumacinha, como a dizer "não esqueçam de mim, voltem sempre". Voltaremos, fogueira, como quem volta no tempo para achar um eterno momento.

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