Fazendo fogueira
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de agosto de 2018
Domingos Pellegrini 
Agorinha mesmo os passarinhos cantavam tristes como sempre no final do dia, daí Vésper acendeu branca, Marte rosadinha, como a dizer que são planetas pequenininhos comparados com as estrelas, mas estão pertinho...

E, quando o céu já todo pisca estrelado, a lua se levanta poeticamente amareladona, na verdade inchada pela ilusão de ótica e rosada pela poeira da atmosfera - mas logo subirá brilhante e estenderá seu manto branco.
Que fazer diante de tal lua cheia? Fogueira! Temos galhos trazidos das redondezas, então toca a catar gravetos, já que sem eles a fogueira não acenderá, ficaremos soprando fumaça, olhos lacrimantes. Mas eis uma ponta de galho caída de árvore, é só quebrar nas mãos e pronto, agora basta apresentar aos gravetos seu parente sofisticado de cabeça vermelha, o palito de fósforo e... eis o fogo!
Já vão se formando brasas, as pérolas mais brilhantes, entretanto as únicas que não se deixam comprar. E, se alguém nunca disse que olhando o fogo a gente sonha e diante do braseiro a gente medita, está dito.
Tive avô tropeiro, quaquavó índia, e decerto antepassados italianos cataram lenha nos bosques para passar o inverno. O fogo está no sangue, a fogueira na alma.
O fogo sobe, feliz com tanta lenha por queimar, como a gente na juventude cheio de energia... Mas depois as brasas durarão mais e só as cinzas amanhecerão - e florirão, enterradas aqui e ali para adubar as plantas. Entretanto, enquanto tem lenha, o fogo teima em queimar.
De repente Branquinha late, deitadinha que estava já se põe de pé num salto, a pelagem eriçando no lombo; e rosna, corre até um arbusto, fareja, fareja, rabo erguido, até voltar de rabo baixo.
A caça da cachorra nos dá fome, e basta uma corridinha até a cozinha, despejar feijão no liquidificador e bater com gengibre, esquentar e encher cuias para, como os tapuias, sorver sem colher na beira da fogueira.
O fogo vai perdendo a batalha para as brasas, vai se formando o braseiro e, se o fogo tinha línguas, o braseiro tem boca, uma caverna rutilante cavada num toco. Em redor, o braseiro vai se cobrindo de cinza, que avermelha com a brisa, volta a branquear, volta a brisar, volta a branquear.
A cinza a cobrir as brasas lembra as cobertas da cama que nos acolherá. Pegamos o trem escuro do sono e, de manhã, pela janela se vê ainda a ex-fogueira a soltar fumacinha, como a dizer "não esqueçam de mim, voltem sempre". Voltaremos, fogueira, como quem volta no tempo para achar um eterno momento.


