Sabendo que a população de Londrina continua crescendo, portanto com mais gente morrendo, e como os cemitérios não crescem como a população, a Prefeitura de Londrina amplia cemitérios para dar conta da demanda. E mais falta de jazigos haveria se a demanda por cremação também não aumentasse ano a ano, com mais gente escolhendo virar um punhado de cinza do que ocupar um espaço taxado anualmente.

Para nascimentos há maternidade municipal, como há postos de saúde, pronto-socorros e hospitais municipais, mas nem se fala em crematório municipal, que entretanto existe em São Paulo desde 1974 e também em Camboriu, Joaçaba e Rio de Janeiro.

Crematório municipal poderia com pouco espaço atender a demanda crescente de cremação e também aliviar a premente demanda de jazigos, pois muita gente hoje só prefere o sepultamento porque a cremação empresarial tem altos preços.

E eis que, folheando velha caderneta de endereços, de repente me espanto de ver tantos amigos e conhecidos já levados por Ela, aquela de quem, diziam quando menino, não se deve dizer o nome.

Lembro então da primeira vez que ouvi falar d´Ela, na varanda de Vó Tiana que, com revista no colo, enxugou lágrimas e perguntei por que. Vó então mostrou na revista a Laika, a cachorra enviada ao céu para ser a primeira astronauta e... ela falou acariciando a Laika na revista:

- Ela vai morrer por nós, que nem Jesus.

Era novembro de 1957 e cinco anos depois a vó conseguiu, como tanto queria, ver seus sete filhos juntos, embora em redor da cama onde Ela levava ela. Que bom ver vocês juntos, foram suas últimas palavras.

Depois entre tanto choro minha mãe viu que eu também chorava, falou que a gente deve se conformar, velhos se vão da vida quando chega a hora, “é normal, viu?”

Mas depois, eu já rapaz, veria que um moço forte e bonito, que na piscina do clube nadava que só vendo, e nos bailes dançava tão bonito... um dia bateu o carro e também se foi, mostrando que Ela leva velhos e moços.

No baile seguinte, para ele o pistonista da orquestra tocou a música O Silêncio, e em silêncio choramos sem enxugar lágrimas, como a mostrar respeito a Ela e a sua foice que colhe velhos e moços, ricos e pobres, pecadores e santos.

Aos 76 anos, cada dia mais encaro Ela não como futura fatalidade e sim com corrente naturalidade. No México há o Dia dos Mortos, que na verdade são dois dias, 1 e 2 de novembro, para celebração Dela, numa mistura de cultura asteca e catolicismo, com alegria, dança e fantasias, a significar que Ela não é temida, é continuação da vida e conexão com os ancestrais, o que parece mais sábio e proveitoso que nosso choroso Dia de Finados.

Mas, aqui entre nós, o que eu gostaria Dela é que me levasse dormindo, sem sofrer e sem fazer sofrer; acharia lindo, mesmo que então não sentisse mais nada se dormindo, como se diz, o último sono.


(E eis que surge o fantasma de Hamlet a perguntar: mas e então, no último sono, que sonhos rolarão? Onde? Mas Ela, por ser ela, sempre nada responde.)

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