Acendendo a fogueira com gorpinho de querosene, lembro do dia em que bebi a própria. Vó Tiana usou vidro vazio de xarope para guardar querosone, e minha mãe, me vendo tossir, mandou abrir a boca e... só depois de enfiar uma colherada sentiu o cheiro. Alguém foi correndo buscar meu pai na Pensão Alto Paraná, e lá fui eu pela mão dele para a Santa Casa ali pertinho. Depois de lavagem estomacal no pronto-socorro, doutor Joninhas me visitou ali numa maca, pegou o pulso e falou sério:

- Estou sentindo aqui que esse rapaz hoje ainda vai correr pelo quintal e trepar numa árvore.

Como eram sábios os médicos antigos! Voltando para casa, logo escapuli e corri até a mangueira para chupar mangas-espada, mordendo no bico e mamando o caldinho. Lá do alto da mangueira ouvi minha mãe chegar e perguntar onde estava eu, e Vó Tiana disse que eu estava seguindo a receita do doutor, ué.

E de repente a velha estrela-dalva se borra com novas lágrimas, como é bom lembrar de minha mãe, de minha avó, a velhice renova as lembranças. Velhice, não, palavra humanamente incorreta, melhor velhidade - aliás cheia de novidades, pois até acendendo fogueira no quintal e me sentindo um neandertal, o celular informa a hora certinha do nascimento da lua.

E é a última vez que te acendo com querosene, comunico à fogueira. Aprendi que casca de laranja ou poncã, devidamente seca, queima que só e acende os gravetos rapidinho. Aliás, ao acender fogueira a gente vê como os pequenos são importantes, né, pois os gravetos é que começam a fogueira.

Aí o bom momento chega de manso e pega de jeito.

Antes do poente, cheguei de viagem, e ganhou graça a velha paisagem. A tarde deitou e a noite caiu sem alarde, aí senti falta do quintal, meu pequeno mundo sem igual.

Depois do poente, os sapos começaram seu concerto. Antes do inverno já silenciavam, agora já recomeçam toda noitinha seu concerto de uma nota só: hã, hã, hã, como a perguntar se está tudo bem, hã?

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. | Foto: iStock

O fogo fala com suas línguas, as brasas sorriem, riem quando passa vento, voam cinzas. Lembro de quando, repórter lá nos anos 1970, conversei com cortadora de cana, toda enroupada, a cabeça enrolada em lenço e enchapelada, coberta de cinza mas sorridente a revelar:

- Antes só davam esse serviço pra homem, moço, mas a mulherada falou não, nós tem filhos pra criar de homem que sumiu no mundo, nós precisamos trabalhar!

Quanta evolução, minha fogueira! Os canaviais não são mais queimados para colheita, e mulheres dirigem desde caminhões a nações.

Nova lembrança, ou melhor, velha lembrança. As vidraças do Cine Ouro Verde quebradas, porque um cesto de lixo começou a queimar lá atrás da tela, fazendo fumaça, aí alguém gritou fogo e as pessoas correram para fora, umas pisando no calcanhar de outras, de modo que dezenas de sapatos ficaram espalhados pelo piso. Mas, décadas depois, ninguém viu o começo do fogo que queimaria todo o cinema transformado em teatro, ninguém gritou fogo e o fogo queimou tudo mas o Ouro Verde ressurgiu.

Londrina, minha fogueira, essa cidade que se vê piscando no horizonte, ressurgiu depois de isolada do mundo pela revolução paulista em 1932, depois ressurgiu das geadas de 1955 e de 1975. Em 32, o fogo era mantido aceso nos fogões, porque acabaram os fósforos. Se apagava o fogo numa casa, o vizinho dava algumas brasas que, sopradas, faziam ressurgir o fogo, nosso mais antigo amigo.

Então, quando te sopro, fogueira, sinto em volta todos aqueles pioneiros que nos deram esta cidade, e todos os ancestrais que mantiveram a fogueira acesa lá no tempo em que a gente ainda nem sabia falar.

Olhando braseiros vejo que cada fogueira é única, como é cada impressão digital ou cada folha no planeta. Como é cada momento, como este em que a lua cheia levanta.

Pés para o fogo, olhos para o céu, sinto a presença de Deus. Está em tudo, queima na lenha, voa na cinza, coaxa com os sapos, pia com a coruja, canta com o grilo. Minha mulher traz comida, vixe que bela ceia, um bom sanduíche na lua cheia.

E o grilo pergunta: você é feliz, fe-liz? E os sapos: hã, hã? Sim, sou feliz, ao menos enquanto durar este momento, esta fogueira, esta lua cheia.

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