Erratas
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sexta-feira, 01 de junho de 2018

Na última crônica aqui faltou a última palavra, depois de contar que fui campeão apenas de cuspe à distância, com a saliva pesada de paçoca, coisa que porém os colegas descobriram: "Pronto! Fui chamado de enganador e, em casa, ainda levei bronca por chegar com os bolsos rasgados, explicando porém que era por inveja de eu ser campeão. Campeão do que, perguntou a irmã. Atletismo, respondi - Lançamento à distância! - sem perceber que, com isso, começava o que iria ser minha profissão, contador de histórias."
E eu iria ficar por aqui com esta errata gráfica, se Dalva não visse também um erro ético:
- Não foi também um erro mascar paçoca para engrossar a saliva e assim ganhar dos outros meninos?
- Mas isso foi coisa de guri...
- Porém não é de menino que se torce o pepino? Esses corruptos de hoje será que não começaram a gostar de roubar quando piás?
De modo que aqui compareço constrangido mas disposto a pedir ao leitor desculpa por esse deslize cometido há mais de sessenta anos. Entenda-se, entretanto, que não estou arrependido de ter contado tal história, mas sim de ter contado como façanha. Mas é preciso ainda acrescentar mais uma errata ética: na mesma crônica contei também que fui campeão de robustez infantil mas, conforme Dalva, decerto isso não foi mérito meu:
- Sua mãe é que deve ter sido campeã de vendas, pois nesses concursos ganhava a criança cuja família conseguia vender mais votos.
Imagino minha mãe recebendo os peões na Pensão Alto Paraná:
- O pernoite custa tanto, e se comprar aqui um voto para meu filho ser campeão de robustez infantil, vai ganhar no almoço um prato-feito bem robusto!
Ou meu pai na barbearia:
- O corte de cabelo custa tanto mas, se comprar aqui um voto para meu filho, faço também a barba de graça!
Assim me torno um descampeão na única modalidade em que venci. Mas serve para pensar nas grandes erratas que poderiam ter mudado o mundo:
Hitler: - Desculpem, gente, eu estava errado de achar que a raça ariana é perfeita. Se fosse, não teriam me seguido cegamente, não é?
Judas: - Estou devolvendo aqueles trinta dinheiros, e esqueçam tudo que delatei.
Tiradentes: - Eu nem era líder, conste nos autos que outros não tiveram coragem de assumir liderança, para que o povo não se acostume a ser enganado.
Einstein: - Na verdade, tudo não é apenas relativo como também inexplicável, a existência é um mistério que física nenhuma conseguirá desvendar.
Luís XIV: - Quando eu disse "o Estado sou eu", queria dizer que tudo devia funcionar a partir de mim, sob minha vontade como mandante absoluto de tudo na França. Minha intenção não foi que cada político ou burocrata futuro se achasse dono do Estado!
John Kennedy: - Ficou famosa minha frase "não pergunte o que a América pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer pela América", mas, pensando bem, melhor dizer "pergunte, sim e sempre, o que os governos fazem com os impostos que todo dia tiram do povo, ou continuaremos a ser uma América elitista, corrupta e belicista".
Getúlio Vargas: - "O povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém", escrevi eu na minha carta-testamento, mas, psicografando agora, acrescento que o povo continuará escravo enquanto continuar dependente de ídolos e confundir política com emoções.
Jesus: - Quando eu disse "perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem, estava confuso, depois de carregar aquela cruz até o alto daquele monte. Mas todos sabem sim o que fazem o tempo todo, e não me usem como desculpa para fazer o mal contando com perdão".



