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Londrina

Domingos Pellegrini

m de leitura Atualizado em 16/07/2022, 00:20

Era uma vez....

PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de julho de 2022

Domingos Pellegrini
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Era uma vez um reino onde os fiscais propiciavam tanta sonegação de impostos que, afinal, o reinado não tinha como pagar os salários dos fiscais. Assim como era uma vez um reino onde os impostos eram tão bem cobrados, e aumentando sempre tanto que, afinal, o povo se mudou para outros países.

Também era uma vez um país de gente desconfiada de tudo, por exemplo nada comprando a peso por desconfiar de balanças, nada comprando embalado por desconfiar dos rótulos, até deixando de votar por desconfiar das urnas, e também por desconfiar de todos os políticos, e desconfia-se que esse país por falta de confiança desapareceu.

Era uma vez alguém dizendo entender tanto de tudo que ganhou apelido de Professor de Deus e acabou falando sozinho.

Também era uma vez alguém que nada falava com ninguém, e foi ficando tão sozinho que não tinha com quem falar e, quando quis falar com alguém, descobriu que não sabia mais falar.

Era uma vez ainda uma pessoa que gostava tanto de complicar tudo que tinha de fazer, que simplesmente acabava nada fazendo.

Era uma vez alguém que, gostando tanto de tatuagens, tatuou-se tanto, com tantas tatuagens, no corpo e até no rosto, que nem pareciam mais tatuagens mas uma segunda pele.

Era uma vez milhares de empresas que procuravam mais lucro só aumentando os preços e contendo os salários de seus trabalhadores, até os consumidores rejeitarem seus produtos e seus próprios trabalhadores trabalharem contra elas.

Por isso, era uma vez o cemitério das empresas quebradas , tão grande que, somando todas, formavam o maior de todos os cemitérios.

Era uma vez um menino que, em vez de brincar como os outros meninos, sonhava ser homem e imitava os homens, ganhando risos dos meninos e piedade dos homens.

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. |  Foto: iStock
 

Era uma vez uma menina que se vestia e se maquiava já como moça, até alguém lhe dizer que parecia uma menina velha, e então chorou e o choro lhe lavou a maquiagem, mostrando que podia voltar a ser menina.

Era uma vez alguém que dizia não ter medo, e que só tinha medo de ter medo, e assim se arriscava em aventuras e perigos, com tantos desastres e ferimentos que hoje diz só ter medo de não ter medo.

Era uma vez outro alguém que só ria de tudo, achando engraçado até a crueldade, alegrando-se com as desgraças alheias, sorrindo dos azares e debochando dos imprevistos, até que se viu sozinho e não vendo mais graça em nada.

Ao contrário, era uma vez alguém tão sério que nunca tinha sorrido na vida mas, no caixão, parecia estar sorrindo.

Era uma vez alguém que só mandado fazia fosse o que fosse, assim sempre fazendo menos do que devia, como era uma vez alguém que nada fazia se fosse mandado, assim sempre fazendo menos do que podia, e os dois acabaram sem saber o que fazer de si mesmos.

Era uma vez também muitos que sonhavam tanto que pouco tempo tinham de fazer o que sonhavam, enquanto outros sonhavam pouco mas, fazendo muito, vinham a ser quase tudo que foi sonhado.

E todas as histórias que começam com “era uma vez” estão a já dizer que tudo muda, tudo e todos se transformam com o tempo, e é por isso que essas histórias começam com era uma vez...