Em poesia versos sem rimas são chamados versos brancos e, pelo seu desprendimento e nobreza, não são adequados para assuntos ligeiros, mas para temas solenes e elegias. Quando no Festival da Record, em 1968, anunciou-se a música "Sinal Fechado", de e com Paulinho da Viola, para quem esperava mais um samba de um sambista foi espantoso ouvir uma das músicas mais criativas da MPB.

O título já dá o cenário e introduz o diálogo entre dois motoristas a esperar no sinaleiro, sem qualquer indício de linguagem poética, ao contrário, em linguagem coloquial reproduzindo a conversa rápida: “Olá, como vai? / Eu vou indo, e você? / Tudo bem, eu vou indo correndo / pegar meu lugar no futuro, e você? / Tudo bem, eu vou indo / em busca de um sono tranquilo, quem sabe? / Quanto tempo, pois é, quanto tempo...”

Entretanto essa conversa em tom prosaico traz para o momento a vida toda, ao mencionar um lugar no futuro e o sono de cada dia, e não é conduzida por uma melodia propriamente mas por uma imprecisa sucessão de segmentos ou retalhos musicais. É como uma pretensa melodia, que se lança seguidamente mas não se realiza continuamente, a indicar a já pretensa amizade entre os dois sujeitos: “Me perdoe a pressa / é a alma dos nossos negócios / Ah, não tem de que / eu também só ando a cem / Quando é que você telefona? / Precisamos nos ver por aí / Pra semana, prometo / talvez nos vejamos, quem sabe?”

A falsidade dessa relação humana que só tem passado é evidenciada pela contradição entre “prometo” e “talvez, quem sabe” – enquanto ecoa novamente “quanto tempo, pois é, quanto tempo”... como a se arranjar um culpado para o fracasso da amizade, o tempo.

A conversa passa a lamentos de um e outro: “Tanta coisa eu tinha a dizer / mas eu sumi na poeira das ruas / Eu também tenho algo a dizer / mas me foge a lembrança / Por favor telefone, em preciso beber / alguma coisa rapidamente”. Assim são evocados novos culpados para o fracasso da relação: a poeira das ruas (a cidade) e a desmemória, enquanto se reforça a onipresença da pressa, “beber rapidamente”.

Um pede que o outro telefone, em vez de dizer que vai telefonar, evidenciando a contradição de quem, mesmo lado a lado no sinal fechado, já assim indica que vai continuar distante.

Com o sinal prestes a abrir, as falas se entrecortam e se trançam, ironicamente porém apenas por pressa: “Pra semana, o sinal / eu procuro você, vai abrir, vai abrir / prometo, não esqueço / por favor não esqueça, não esqueça / não esqueço, adeus”.

Assim, as frases entrecortadas representam a amizade desencontrada, encerrando com a fatal palavra “adeus”, a se tornar a única verdadeira no diálogo de falsidades.

Na música, pausas e silêncios, entre as palavras e os retalhos musicais, simbolizam a amizade enfim inexistente e, também, o vazio dos homens cheios de pressa. Tanto letra quanto música parecem carentes de elaboração ou sem completude, representando assim a vacuidade das relações humanas superficiais.

No festival "Sinal Fechado" foi recebida com surpresa e encantamento por quem ama música, e também com espanto ou estranheza por quem esperava samba de um conhecido sambista ou até algo diferente mas não tão elaborado, como disse um jurado. Apesar disso ou até por isso, "Sinal Fechado" ganhou o primeiro lugar no festival, e, assim, essa cantiga de acordar acabou se tornando, também, um símbolo da superação de preconceitos.

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